Violência obstétrica racializada
É a manifestação do racismo estrutural na assistência ao parto, resultando em tratamento desigual, negligente e desumano contra mulheres negras e indígenas. Inclui desde a crença racista de que 'mulheres negras sentem menos dor' até a mortalidade materna evitável desproporcional.
Definição
A Violência Obstétrica Racializada é uma especificação necessária do conceito de Violência Obstétrica. Enquanto a violência obstétrica descreve o desrespeito generalizado aos corpos femininos no parto, o recorte racializado denuncia como o racismo estrutural e institucional agrava brutalmente o atendimento às mulheres negras e indígenas.
Dados do Ministério da Saúde e da Fiocruz (pesquisa "Nascer no Brasil") mostram que mulheres negras recebem menos anestesia no parto normal, têm menos tempo de acompanhamento pré-natal de qualidade e morrem muito mais de causas evitáveis (hipertensão, hemorragia) do que mulheres brancas. Isso não é uma "falha de acesso", mas um viés implícito e explícito dos profissionais de saúde.
Como funciona
Opera através de mitos racistas herdados da escravidão e da eugenia médica:
- Mito da Resistência à Dor: A crença infundada de que "mulheres negras são mais fortes" ou "aguentam mais dor", levando médicos a negarem analgesia.
- Hipersexualização: Comentários humilhantes durante o parto que associam a mulher negra à promiscuidade ("na hora de fazer não gritou").
- Controle Demográfico: A prática histórica de esterilização forçada (laqueadura sem consentimento pleno) em populações indígenas e negras, sob a justificativa disfarçada de "planejamento familiar".
Exemplos
Negação de Anestesia: A estatística recorrente de que mulheres negras passam pelo parto normal "a seco" com muito mais frequência, incluindo a sutura do períneo (episiotomia) sem anestesia local.
Isolamento na Maternidade: Deixar a mulher negra sozinha gritando de dor no corredor, enquanto a atenção da equipe se volta para pacientes brancas consideradas "mais delicadas".
"Quem pariu Mateus que o embale": Frases ditas por enfermeiros que deslegitimam a dor da parturiente negra, evocando estereótipos de que elas "fazem muitos filhos" e "são acostumadas" com o sofrimento.
Quem é afetado
Diretamente mulheres pretas, pardas, indígenas e quilombolas. A vulnerabilidade aumenta quando se intersecciona com a pobreza, mas o racismo médico atinge até mesmo mulheres negras de classe média, que relatam ter suas queixas ignoradas com mais frequência que mulheres brancas.
Por que é invisível
É invisível porque o racismo médico é protegido pelo "conhecimento técnico". Quando um médico escolhe não dar anestesia, ele justifica com termos clínicos, mascarando o viés racial. Além disso, a morte materna de mulheres negras é frequentemente naturalizada como consequência de suas comorbidades (pressão alta, diabetes), sem questionar por que o Estado não tratou essas condições preventivamente.
Efeitos
- Mortalidade Materna Desproporcional: O risco de uma mulher negra morrer no parto no Brasil é estatisticamente muito superior ao de uma branca.
- Trauma Reprodutivo: O medo do parto e a desconfiança do sistema de saúde, levando ao adoecimento psíquico no puerpério (depressão pós-parto agravada pela violência).
- Genocídio: A longo prazo, a negligência sistemática com a reprodução negra configura uma faceta do Genocídio Negro.
Referências (BR)
- Jurema Werneck
- Sueli Carneiro
- Emanuelle Goes
Referências (Internacionais)
- Dota Reis
- Patricia Hill Collins
