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Colonialidade de gênero

Conceito desenvolvido por María Lugones que expõe como a imposição do sistema de gênero binário e colonial serviu para desumanizar corpos racializados. Denuncia que a categoria 'mulher' foi historicamente reservada às brancas, enquanto mulheres indígenas e negras foram vistas como fêmeas exploráveis, sem direito à feminilidade.

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Definição

A Colonialidade de gênero é um conceito chave do feminismo decolonial, teorizado pela filósofa argentina María Lugones. Ela argumenta que o gênero, como entendemos hoje (o sistema binário homem/mulher), não é uma categoria universal nem biológica, mas uma imposição colonial.

Antes da colonização, muitas sociedades indígenas e africanas (como os Yorubás, estudados por Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí) não organizavam sua sociedade predominantemente pelo gênero. O colonizador europeu impôs essa lente para classificar e hierarquizar a humanidade.

Nesse sistema, a "civilidade" e a fragilidade associadas ao ser "mulher" foram reservadas apenas às mulheres brancas burguesas. As mulheres negras e indígenas foram posicionadas fora da humanidade plena, vistas não como "mulheres", mas como fêmeas: corpos biologicamente úteis para trabalho braçal e reprodução de escravizados, mas desprovidos de direitos à proteção, à maternidade digna ou à feminilidade.

Como funciona

Funciona através de uma dupla operação de desumanização:

  1. Diferença Colonial: O sistema cria uma barreira intransponível entre o humano (branco/europeu) e o não-humano (indígena/africano). O gênero funciona de forma diferente para cada lado dessa linha.
  2. Imposição do Binarismo: Destrói estruturas sociais complexas e igualitárias de povos originários, impondo o patriarcado cristão onde o homem tem poder absoluto sobre a mulher, algo que nem sempre existia nessas culturas.

Como explica Lélia Gonzalez, no Brasil isso se manifestou na figura da "mucama" e da "mulata", onde o corpo da mulher negra é hipersexualizado e explorado, mas sua posição social nunca é equiparada à da "sinhá".

Exemplos

  • A "Mulata tipo exportação": A construção estatal de uma imagem da mulher brasileira como produto sexual para turismo, vendendo a "mistura" racial como algo exótico e disponível.

  • Divisão Racial do Trabalho Doméstico: A naturalização de que o lugar da mulher negra é servindo à mulher branca, repetindo a lógica casa-grande/senzala.

  • Genocídio Trans Específico: A violência extrema contra travestis negras, que rompem duplamente com a colonialidade (pela raça e pela recusa do binarismo de gênero).

Quem é afetado

Atinge diretamente mulheres negras, indígenas e populações LGBTQIA+. Para mulheres racializadas, a colonialidade de gênero significou historicamente a negação do direito à fragilidade e ao cuidado. Elas sempre tiveram que trabalhar "como homens" (na lavoura, na rua) enquanto sofriam violências "de mulheres" (estupro, abuso), sem contudo receber a proteção social dada às mulheres brancas.

Por que é invisível

É invisível porque o sistema educacional e a mídia naturalizam o gênero binário como se fosse algo eterno e biológico ("sempre foi assim"). Esconde-se o fato de que o patriarcado que mata mulheres hoje no Brasil tem raízes profundas na estrutura escravocrata, que ensinou que corpos negros estão disponíveis para o uso e descarte.

Efeitos

  • Violência Específica: A violência contra mulheres racializadas é mais brutal porque carrega a herança da desumanização colonial (ex: altos índices de obstetrícia violenta contra mulheres negras).
  • Hipersexualização: A redução da mulher negra a um corpo "quente" e disponível, herança do estupro colonial naturalizado.
  • Apagamento de Saberes: A destruição de sistemas matriarcais ou duais de poder que existiam em sociedades indígenas antes da chegada do cristianismo.

Referências (BR)

  • Lélia Gonzalez
  • Ochy Curiel
  • Sueli Carneiro

Referências (Internacionais)

  • María Lugones
  • Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí
  • Angela Davis

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