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Precificação por vigilância

Prática algorítmica de ajustar preços de produtos ou serviços em tempo real, baseando-se no rastreamento do perfil comportamental, localização, nível de bateria, histórico de compras e urgência do consumidor, visando extrair o valor máximo que cada indivíduo está disposto a pagar naquele instante.

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Definição

A precificação por vigilância (ou Surveillance Pricing) ocorre quando plataformas digitais utilizam a vasta coleta de dados pessoais para praticar uma discriminação de preços ultra-personalizada. Enquanto o comércio tradicional exibe o mesmo preço para todos os clientes, os algoritmos de plataforma criam "preços individuais". Segundo a teoria do Capitalismo de Vigilância de Shoshana Zuboff, essa prática transforma a experiência humana em matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas. O sistema não avalia apenas o custo do serviço, mas a disponibilidade psíquica e financeira do indivíduo para pagar mais em um contexto específico. É uma violação direta do princípio da transparência no consumo, pois o usuário nunca tem acesso ao valor real de custo do serviço, apenas à cifra que o algoritmo decidiu que ele aceitaria pagar sob pressão ou conveniência imediata.

Como funciona

O mecanismo opera através da análise preditiva de variáveis que o consumidor geralmente não associa ao valor final do produto. O sistema monitora o hardware do dispositivo para identificar urgência, como o nível crítico de bateria, e cruza esses dados com o histórico de localização para inferir o poder aquisitivo do bairro onde o usuário se encontra. Além disso, a inteligência artificial mapeia padrões de consumo para detectar se o indivíduo é um comparador de preços ou se demonstra fidelidade passiva, o que permite ao algoritmo testar margens de lucro maiores sem o risco de perder a venda. O estado emocional e a pressa são deduzidos por comportamentos de navegação erráticos, transformando gatilhos psicológicos em critérios de inflação instantânea da tarifa.

Exemplos

  • Monitoramento de bateria: Aplicativos de transporte que exibem valores significativamente mais altos quando detectam que o celular do usuário está com menos de 10% de carga, capitalizando sobre o receio de o aparelho desligar antes da chegada do motorista.

  • Diferenciação por modelo de dispositivo: Plataformas de reserva de hotéis ou passagens que oferecem tarifas mais elevadas para usuários que acessam o site a partir de smartphones de última geração, presumindo maior capacidade de pagamento.

  • Geofencing de preço: O aumento artificial de preços de itens de farmácia ou supermercado em aplicativos de entrega baseado unicamente no CEP de origem do pedido, independentemente da distância logística.

  • Retenção de descontos para usuários fiéis: Algoritmos que suprimem cupons ou promoções para clientes que o sistema já identificou como compradores recorrentes, reservando as ofertas apenas para atrair novos usuários.

Quem é afetado

Afeta todos os consumidores inseridos em ecossistemas digitais, mas penaliza severamente aqueles em situações de vulnerabilidade, urgência ou baixa literacia digital. No Brasil, essa prática aprofunda a desigualdade estrutural, pois cobra mais caro de quem, por necessidade geográfica ou falta de alternativas de transporte e serviço em horários de risco, torna-se um "refém" das plataformas. A precificação discriminatória atinge diretamente a soberania financeira de trabalhadores que dependem da previsibilidade de gastos para fechar o orçamento doméstico.

Por que é invisível

A prática é mascarada sob eufemismos mercadológicos como "preço dinâmico" ou "ajuste de mercado", ocultando o componente de monitoramento pessoal. As empresas protegem esses algoritmos como segredos comerciais ("caixas-pretas"), o que impede auditorias de órgãos de defesa do consumidor. A invisibilidade é garantida pela personalização extrema: como o preço é gerado individualmente em milissegundos, o consumidor não consegue comparar sua oferta com a de outros usuários, naturalizando a variação como uma "flutuação natural" do sistema, e não como uma manipulação baseada em seus dados privados.

Efeitos

Os efeitos principais incluem a erosão da confiança nas relações de consumo e a eliminação da previsibilidade financeira. Gera um estado de ansiedade algorítmica, forçando o usuário a tentar "enganar" o sistema para obter valores justos. Estruturalmente, permite que grandes corporações capturem todo o excedente do consumidor, realizando uma transferência de renda invisível da base da pirâmide para as grandes empresas de tecnologia por meio de micro-extrações diárias que, somadas, representam uma perda significativa de poder de compra para as populações monitoradas.

Referências (BR)

  • Rafael Zanatta
  • Sérgio Amadeu
  • Fernanda Bruno

Referências (Internacionais)

  • Shoshana Zuboff
  • Cathy O'Neil
  • Nick Srnicek

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