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Capitalismo de vigilância

Conceito de Shoshana Zuboff que descreve uma nova lógica de acumulação econômica baseada na extração massiva de dados da experiência humana, convertidos em produtos preditivos para modulação de comportamento.

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Definição

O Capitalismo de Vigilância é o conceito desenvolvido pela professora Shoshana Zuboff em A Era do Capitalismo de Vigilância (2019). Descreve uma mutação do capitalismo de informação onde a experiência humana privada — emoções, deslocamentos — é capturada unilateralmente como matéria-prima gratuita. Esses dados geram o excedente comportamental: informações valiosas sobre o que faremos a seguir, empacotadas em "produtos preditivos" e vendidas em mercados de futuros comportamentais. O produto não somos nós, mas as previsões sobre nós para clientes que apostam em nossas ações futuras.

Como funciona

Funciona através de uma lógica extrativista voraz: plataformas oferecem serviços "gratuitos" como iscas. O ciclo envolve extração (captura de dados), predição (uso de IA para inferir padrões) e modulação (intervenção sutil para garantir o comportamento previsto, empurrando o usuário via nudges ou conteúdo). Zuboff chama isso de Poder Instrumentário: controle automatizado da sociedade em escala de colmeia, sem coerção física ou ideológica explícita.

Exemplos

  • Pokémon GO: Experimento de modulação guiando jogadores fisicamente para locais patrocinados.

  • Caixas de som inteligentes: gravação doméstica para refinar perfis de consumo.

  • Seguros com rastreamento: preço da apólice ajustado minuto a minuto pela direção.

  • Cambridge Analytica: uso de dados psicológicos para manipular votos no Brexit/EUA 2016.

Quem é afetado

Todos os usuários de tecnologia conectada perdem o santuário da vida privada. Impacto desigual: populações marginalizadas sofrem mais com racismo algorítmico e exclusão automatizada de crédito ou emprego baseada em previsões opacas. Afeta a democracia, criando assimetria de poder epistêmico sem precedentes: as Big Techs sabem mais sobre os cidadãos do que o Estado ou eles mesmos.

Por que é invisível

Invisível porque opera nos bastidores ("shadow text") de interfaces amigáveis, protegido por ilegidibilidade proposital (termos de uso incompreensíveis e caixas-pretas). Normalizado pela narrativa da inevitabilidade tecnológica: somos levados a crer que perder privacidade é o preço do progresso, ocultando que é uma escolha política e predadora.

Efeitos

  • Erosão da autodeterminação: Liberdade minada por sugestões subliminares.
  • Assimetria epistêmica: Desigualdade radical de conhecimento.
  • Comodificação da vida: Intimidade virando mercadoria.
  • Controle social automatizado: Influência silenciosa em eleições e humores.

Referências (BR)

  • Sérgio Amadeu
  • Fernanda Bruno
  • Rafael Evangelista
  • Evgeny Morozov (Crítica conexa)

Referências (Internacionais)

  • Shoshana Zuboff
  • Nick Srnicek (Capitalismo de Plataforma)
  • Jaron Lanier
  • Cathy O'Neil

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