Plataformização
Processo social e tecnológico pelo qual plataformas digitais e seus algoritmos reorganizam a economia, trabalho, relações sociais e cultura, incorporando e reproduzindo relações de poder existentes e gerando formas de opressão estrutural.
Definição
A Plataformização é o processo pelo qual atividades sociais, econômicas e culturais passam a ser mediadas, controladas e organizadas por plataformas digitais e seus algoritmos — sistemas automatizados de classificação, decisão e influência que moldam comportamentos, visibilidade, trabalho e relações sociais em grande escala. Do ponto de vista crítico, essa forma de mediação tecnológica não é neutra, mas reflete e reproduz relações de poder históricas e estruturais de opressão, desigualdade e violência simbólica e material. Pesquisadores como Safiya Umoja Noble argumentam que algoritmos e sistemas de plataformas podem reforçar estereótipos, desigualdades raciais e de gênero, replicando (em código) vieses sociais existentes, especialmente contra grupos marginalizados.
Como funciona
A plataformização opera como uma infraestrutura de controle social embutida na tecnologia:
- Reorganização econômica: reestrutura o trabalho e a economia em torno de lógicas capitalistas de extração de valor, precarização e vigilância constante.
- Reconfiguração de Desigualdades: Transforma desigualdades existentes em novas formas de exclusão e classificação automatizada, onde o preconceito é codificado.
- Redução Ontológica: Reduz atores sociais complexos (trabalhadores, usuários) a meros dados e métricas controlados por corporações, desumanizando as relações.
- Mediação Algorítmica: Utiliza sistemas automatizados para decidir quem vê o quê, quem recebe qual oportunidade e quem é silenciado, muitas vezes sem transparência.
Exemplos
Vieses em motores de busca: resultados de pesquisa que associam mulheres negras a conteúdo sexualizado ou estereótipos negativos (estudado por Safiya Noble).
Discriminação em apps de entrega: algoritmos que penalizam entregadores por pausas necessárias ou que direcionam corridas piores para determinados perfis.
Moderação de Conteúdo Enviesada: Remoção automática de conteúdos de ativistas ou grupos minoritários enquanto discursos de ódio de grupos dominantes permanecem.
Sistemas de Crédito e Vigilância: Negativa de serviços ou crédito baseada em "pontuações" algorítmicas que correlacionam pobreza ou localização geográfica com risco.
Quem é afetado
- Trabalhadores precarizados e gig workers: motoristas, entregadores e microtaskers que têm suas rotinas e rendimentos ditados por algoritmos opacos.
- Grupos Marginalizados: Pessoas negras, mulheres, LGBTQIA+ e populações de baixa renda, cuja discriminação histórica é reenquadrada e amplificada pelos sistemas automatizados.
- Criadores de Conteúdo: Indivíduos cuja visibilidade e sustento dependem de métricas flutuantes de reputação e engajamento.
- Comunidades Vulneráveis: Alvos de discursos de ódio (farm do ódio), silenciamento e exclusão digital sistemática.
Por que é invisível
A plataformização exerce um controle ubíquo e muitas vezes imperceptível:
- Neutralidade Ilusória: As plataformas se apresentam como meras intermediárias técnicas neutras, escondendo os valores políticos e sociais embutidos em seus códigos.
- Violência Cotidiana: O controle ocorre na rotina diária (como consumimos informação, como trabalhamos), tornando-se normalizado e internalizado.
- Opacidade Técnica: Os mecanismos de decisão (algoritmos de feed, precificação dinâmica) são caixas-pretas inacessíveis ao público, dificultando a identificação da fonte da opressão.
Efeitos
- Violência cotidiana e psicológica: a normalização algorítmica gera frustração, ansiedade, exclusão social e medo, afetando a saúde mental e a autoestima.
- Microagressões algorítmicas: sistemas automatizados comunicam mensagens repetidas de desprezo ou desvalorização para certos grupos (ex: sugestões de pesquisa racistas, reconhecimento facial falho).
- Precarização do trabalho: erosão de direitos trabalhistas e instabilidade financeira para milhões de pessoas dependentes de plataformas.
- Reprodução de opressões: amplificação de racismo, sexismo e classismo sob a fachada de eficiência tecnológica.
Referências (BR)
- Tarcízio Silva
- Sergio Amadeu da Silveira
- Rafael Grohmann
Referências (Internacionais)
- Safiya Umoja Noble
- Virginia Eubanks
- Nick Srnicek
- José van Dijck
