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Plataformização

Processo social e tecnológico pelo qual plataformas digitais e seus algoritmos reorganizam a economia, trabalho, relações sociais e cultura, incorporando e reproduzindo relações de poder existentes e gerando formas de opressão estrutural.

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Definição

A Plataformização é o processo pelo qual atividades sociais, econômicas e culturais passam a ser mediadas, controladas e organizadas por plataformas digitais e seus algoritmos — sistemas automatizados de classificação, decisão e influência que moldam comportamentos, visibilidade, trabalho e relações sociais em grande escala. Do ponto de vista crítico, essa forma de mediação tecnológica não é neutra, mas reflete e reproduz relações de poder históricas e estruturais de opressão, desigualdade e violência simbólica e material. Pesquisadores como Safiya Umoja Noble argumentam que algoritmos e sistemas de plataformas podem reforçar estereótipos, desigualdades raciais e de gênero, replicando (em código) vieses sociais existentes, especialmente contra grupos marginalizados.

Como funciona

A plataformização opera como uma infraestrutura de controle social embutida na tecnologia:

  1. Reorganização econômica: reestrutura o trabalho e a economia em torno de lógicas capitalistas de extração de valor, precarização e vigilância constante.
  2. Reconfiguração de Desigualdades: Transforma desigualdades existentes em novas formas de exclusão e classificação automatizada, onde o preconceito é codificado.
  3. Redução Ontológica: Reduz atores sociais complexos (trabalhadores, usuários) a meros dados e métricas controlados por corporações, desumanizando as relações.
  4. Mediação Algorítmica: Utiliza sistemas automatizados para decidir quem vê o quê, quem recebe qual oportunidade e quem é silenciado, muitas vezes sem transparência.

Exemplos

  • Vieses em motores de busca: resultados de pesquisa que associam mulheres negras a conteúdo sexualizado ou estereótipos negativos (estudado por Safiya Noble).

  • Discriminação em apps de entrega: algoritmos que penalizam entregadores por pausas necessárias ou que direcionam corridas piores para determinados perfis.

  • Moderação de Conteúdo Enviesada: Remoção automática de conteúdos de ativistas ou grupos minoritários enquanto discursos de ódio de grupos dominantes permanecem.

  • Sistemas de Crédito e Vigilância: Negativa de serviços ou crédito baseada em "pontuações" algorítmicas que correlacionam pobreza ou localização geográfica com risco.

Quem é afetado

  • Trabalhadores precarizados e gig workers: motoristas, entregadores e microtaskers que têm suas rotinas e rendimentos ditados por algoritmos opacos.
  • Grupos Marginalizados: Pessoas negras, mulheres, LGBTQIA+ e populações de baixa renda, cuja discriminação histórica é reenquadrada e amplificada pelos sistemas automatizados.
  • Criadores de Conteúdo: Indivíduos cuja visibilidade e sustento dependem de métricas flutuantes de reputação e engajamento.
  • Comunidades Vulneráveis: Alvos de discursos de ódio (farm do ódio), silenciamento e exclusão digital sistemática.

Por que é invisível

A plataformização exerce um controle ubíquo e muitas vezes imperceptível:

  • Neutralidade Ilusória: As plataformas se apresentam como meras intermediárias técnicas neutras, escondendo os valores políticos e sociais embutidos em seus códigos.
  • Violência Cotidiana: O controle ocorre na rotina diária (como consumimos informação, como trabalhamos), tornando-se normalizado e internalizado.
  • Opacidade Técnica: Os mecanismos de decisão (algoritmos de feed, precificação dinâmica) são caixas-pretas inacessíveis ao público, dificultando a identificação da fonte da opressão.

Efeitos

  • Violência cotidiana e psicológica: a normalização algorítmica gera frustração, ansiedade, exclusão social e medo, afetando a saúde mental e a autoestima.
  • Microagressões algorítmicas: sistemas automatizados comunicam mensagens repetidas de desprezo ou desvalorização para certos grupos (ex: sugestões de pesquisa racistas, reconhecimento facial falho).
  • Precarização do trabalho: erosão de direitos trabalhistas e instabilidade financeira para milhões de pessoas dependentes de plataformas.
  • Reprodução de opressões: amplificação de racismo, sexismo e classismo sob a fachada de eficiência tecnológica.

Referências (BR)

  • Tarcízio Silva
  • Sergio Amadeu da Silveira
  • Rafael Grohmann

Referências (Internacionais)

  • Safiya Umoja Noble
  • Virginia Eubanks
  • Nick Srnicek
  • José van Dijck

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