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Colonialismo de dados

A fase da economia digital onde a extração de dados da vida humana é tratada como matéria-prima para o lucro, replicando as lógicas coloniais de apropriação e dominação através da tecnologia.

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Definição

O colonialismo de dados define uma nova ordem social onde a experiência humana é convertida em dados para serem processados e monetizados por grandes empresas de tecnologia, localizadas majoritariamente no Norte Global. Ao contrário do colonialismo histórico, que buscava terras e trabalho braçal, esta fase busca a "alma digital" e o comportamento cotidiano. Nick Couldry e Ulises Mejias argumentam que as Big Techs atuam como as novas metrópoles, colonizando não territórios geográficos, mas a profundidade da vida social. No Brasil, esse fenômeno se manifesta na dependência de infraestruturas estrangeiras para serviços básicos, transformando cidadãos em meros fornecedores de matéria-prima informacional que, depois de processada lá fora, retorna para nós na forma de algoritmos de controle e consumo.

Como funciona

O mecanismo central é a captura incessante de dados através de dispositivos e plataformas que se tornaram indispensáveis para a sobrevivência social. Ocolonialismo de dados opera pela naturalização da vigilância, onde a gratuidade dos serviços esconde o custo real: a expropriação da privacidade e da autonomia. Por meio de termos de uso que ninguém lê, as plataformas estabelecem uma relação desigual onde o usuário perde a propriedade sobre sua própria pegada digital. Esse processo cria os chamados duplos digitais, perfis algorítmicos que decidem o que vemos, consumimos e até como votamos, sem que tenhamos qualquer controle sobre a lógica que rege essas decisões.

Exemplos

  • Educação pública mediada: a adoção em massa de plataformas estrangeiras para gestão de aulas e dados de alunos na rede pública brasileira, onde o histórico de aprendizado de crianças e adolescentes é processado por Big Techs sem transparência sobre o uso futuro desses dados.

  • Reconhecimento facial urbano: a implementação de câmeras de vigilância com identificação biométrica em transportes públicos e ruas do Brasil, muitas vezes usando tecnologias importadas que extraem perfis raciais e de comportamento da população local.

  • Apps de transporte e entrega: a relação entre motoristas brasileiros e plataformas multinacionais, onde o trabalhador é monitorado em cada detalhe de seu trajeto para alimentar algoritmos que definem ganhos e punições de forma opaca e unilateral.

Quem é afetado

Toda a sociedade é atingida, mas o impacto é desproporcional no Sul Global e nas populações marginalizadas do Brasil. Países em desenvolvimento tornam-se laboratórios de testes para tecnologias intrusivas que seriam barradas por leis mais rígidas na Europa ou nos Estados Unidos. Residentes de periferias urbanas, trabalhadores de aplicativos e estudantes da rede pública são os mais vulneráveis, uma vez que o acesso a direitos e serviços muitas vezes é condicionado à entrega total de seus dados pessoais em plataformas controladas por corporações estrangeiras.

Por que é invisível

A invisibilidade é garantida pela conveniência tecnológica e pela retórica do progresso. A sociedade foi ensinada a ver as plataformas digitais como ferramentas neutras de conexão, mascarando sua função extrativista. Além disso, a complexidade técnica dos algoritmos cria uma barreira de compreensão, onde o desvio de dados ocorre em milissegundos e em escalas microscópicas. O "mito da nuvem" reforça essa ideia de desmaterialização, ocultando os centros de dados físicos e os cabos submarinos que garantem a transferência de riqueza informacional do Brasil para os centros de poder global.

Efeitos

Gera uma erosão profunda da soberania digital nacional e da autonomia individual. O Brasil torna-se dependente de decisões tecnológicas tomadas em outro contexto cultural e jurídico, o que enfraquece a proteção de dados locais e a indústria de tecnologia nacional. Socialmente, produz o chamado policiamento preditivo e a discriminação automatizada, onde os dados extraídos são usados para classificar e punir grupos historicamente oprimidos. A longo prazo, o colonialismo de dados ameaça a própria democracia, pois a esfera pública passa a ser mediada por algoritmos cujo único objetivo é o lucro e a retenção de atenção.

Referências (BR)

  • Sérgio Amadeu
  • Joyce Souza
  • Paulo Vaz

Referências (Internacionais)

  • Nick Couldry
  • Ulises Mejias

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