Assédio de crédito
Prática predatória de instituições financeiras que exploram a vulnerabilidade de idosos e aposentados (hipervulneráveis) para impor empréstimos abusivos.
Definição
O Assédio de crédito (ou assédio de consumo financeiro) é uma forma de violência patrimonial institucionalizada que atinge, com crueldade cirúrgica, os hipervulneráveis: idosos, aposentados, pensionistas e analfabetos. Diferente de uma oferta comum de serviço, o assédio é caracterizado pela insistência, invasão de privacidade e manipulação. Bancos, financeiras e correspondentes bancários utilizam dados vazados ilegalmente (muitas vezes do próprio INSS) para abordar o idoso com ofertas agressivas de crédito consignado, muitas vezes antes mesmo que a pessoa receba seu primeiro benefício. A violência reside no aproveitamento da fragilidade cognitiva, da solidão ou da necessidade financeira momentânea do idoso para empurrar contratos vitalícios, com juros que, somados, podem triplicar o valor da dívida original.
Como funciona
O modus operandi é um ciclo de Vazamento, Abordagem e Endividamento: 1) Vazamento: Dados sigilosos de recém-aposentados vazam de dentro da previdência social para financeiras (data brokers do mercado cinza). 2) Abordagem Telemarketing: O idoso recebe dezenas de ligações diárias. Os atendentes usam scripts manipuladores: Seu dinheiro já está liberado, É um direito seu, Confirme seus dados para liberar o aumento. Muitas vezes, a contratação é feita por telefone com um simples sim, sem que o idoso entenda que está contraindo uma dívida de 84 meses. 3) Refinanciamento Infinito: Quando o idoso está terminando de pagar, o banco liga oferecendo um troco (dinheiro na mão) para refinanciar a dívida. O idoso pega R$ 1.000,00 na mão, mas a dívida volta para a estaca zero, criando uma servidão financeira eterna.
Exemplos
O Cartão RMC: O banco oferece um empréstimo consignado, mas emite um cartão de crédito com Reserva de Margem Consignável. O idoso acha que fez um empréstimo com parcelas fixas, mas está pagando apenas o mínimo do cartão rotativo eternamente, gerando uma dívida impagável que nunca diminui.
A Venda Casada de Seguro: Junto com o empréstimo, o banco embutiu um seguro de vida, um título de capitalização e uma taxa de abertura de crédito, tudo descontado do valor liberado, sem que o idoso soubesse ou consentisse.
A Ligação Fantasma: O idoso recebe um depósito misterioso em sua conta. Dias depois, descobre que é um empréstimo que ele não pediu (fraude do depósito não solicitado). Para devolver, a burocracia é infernal, e os juros começam a correr.
Quem é afetado
Atinge massivamente a população idosa brasileira, especialmente os de baixa renda e baixa escolaridade digital. O fenômeno do Superendividamento passivo é a consequência direta: o idoso tem mais de 30% (às vezes 50% ou mais) de sua renda comprometida na fonte (desconto em folha), sobrando menos do que o mínimo existencial para comprar remédios e comida. É uma engenharia financeira que transfere renda da aposentadoria pública diretamente para o lucro bancário, deixando a fome como rastro.
Por que é invisível
É invisível porque é naturalizado como negócio. A sociedade vê o empréstimo como uma ajuda e culpa o idoso por não saber administrar o dinheiro, ignorando a assimetria brutal de poder e informação. Além disso, a fraude é sofisticada: contratos digitais são assinados com biometria facial (uma selfie pedida para prova de vida que vira assinatura de contrato), dificultando a contestação judicial. O INSS e os órgãos reguladores, historicamente, têm sido lenientes com os vazamentos e com a fiscalização dos correspondentes bancários.
Efeitos
Os efeitos são devastadores: Morte social (o idoso deixa de sair, de comer bem, de ter lazer), doenças psicossomáticas (depressão, ansiedade pelo telefone tocando) e conflitos familiares (quando a dívida afeta o sustento da casa). Juridicamente, a Lei nº 14.181/2021 (Lei do Superendividamento) tentou frear isso, proibindo o assédio e a oferta sem juros, mas a prática se reinventa mais rápido que a lei.
Referências (BR)
- Lillian Salgado
- Cláudia Lima Marques
