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Xenomisia

Ódio, aversão ou hostilidade ativa direcionada a estrangeiros e suas culturas. Diferencia-se da xenofobia por enfatizar o componente do ódio e da agressão em vez do medo ou fobia.

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Definição

A xenomisia é um conceito que nomeia o ódio e a repulsa ativa em relação ao estrangeiro, ao diferente e a tudo o que provém de fora do próprio grupo identitário. Enquanto o termo xenofobia (do grego phobos, medo) sugere uma reação defensiva baseada no temor ao desconhecido, a xenomisia (do grego misia, ódio) enfatiza a agressividade e o desejo de extermínio ou humilhação do outro. Este conceito é fundamental para descrever a escalada de violências contra imigrantes e refugiados, onde o preconceito deixa de ser um sentimento passivo de estranhamento e se torna uma prática política de perseguição. No Brasil, a xenomisia manifesta-se de forma seletiva: não atinge o estrangeiro do norte global, mas foca sua hostilidade em imigrantes vindos de países do sul global, como haitianos, venezuelanos e africanos, revelando uma profunda imbricação entre o ódio ao estrangeiro e o racismo estrutural.

Como funciona

O mecanismo da xenomisia opera através da construção do outro como uma ameaça moral, biológica ou econômica que deve ser repelida com violência. Funciona por meio de um processo de contágio emocional, onde o ódio é retroalimentado por narrativas de invasão e perda de soberania nacional. Diferente do medo, que pode ser aplacado com informação, a xenomisia se alimenta da desumanização deliberada, tratando o diferente como um objeto de desprezo. Nas redes sociais e no discurso político, ela se manifesta através de campanhas de difamação e da exigência de leis excludentes. O sistema busca a purificação do corpo social, onde a presença do estrangeiro é lida como uma mácula ou um perigo que exige uma resposta ativa e, muitas vezes, física de expulsão ou anulação.

Exemplos

  • Ataques físicos e verbais a imigrantes em locais de trabalho: situações onde a hostilidade não é baseada em conflitos profissionais, mas na pura aversão à origem nacional do trabalhador.

  • Campanhas de ódio online contra refugiados: a disseminação de informações falsas que associam imigrantes a crimes ou doenças com o objetivo de gerar repulsa pública e justificar atos de violência física.

  • Preconceito regional interno: a hostilidade manifestada em épocas de eleição ou competições esportivas contra cidadãos do norte e nordeste do Brasil, utilizando xingamentos que reforçar uma suposta inferioridade cultural e intelectual.

  • A recusa de atendimento ou serviço baseada no sotaque: quando o estrangeiro é humilhado ou negligenciado em repartições públicas ou comércios não por falta de documentos, mas pelo desprezo ativo à sua condição de forasteiro.

Quem é afetado

As principais vítimas são imigrantes, refugiados e solicitantes de asilo, especialmente aqueles provenientes de nações mais pobres ou em conflito. No contexto brasileiro contemporâneo, a xenomisia afeta agressivamente populações periféricas globais que buscam sobrevivência no país. Ela também atinge pessoas de diferentes regiões do próprio país, como no caso do preconceito contra nordestinos em grandes capitais do sudeste, fenômeno que pode ser lido como uma forma interna de xenomisia. O impacto psicológico sobre as vítimas é devastador, gerando isolamento, perda da identidade cultural e um estado permanente de hipervigilância, impedindo que esses indivíduos se sintam cidadãos plenos e seguros nos territórios que habitam.

Por que é invisível

A invisibilidade da xenomisia reside na sua frequente confusão com a xenofobia. Ao utilizarmos o termo fobia, acabamos por psiquiatrizar ou suavizar o preconceito, tratando-o como um transtorno de ansiedade do agressor em vez de um crime de ódio. A xenomisia também se oculta sob o pretexto da defesa dos empregos locais ou da preservação da cultura nacional, dando um ar de legitimidade econômica e política a uma aversão que é puramente discriminatória. Além disso, a falta de tipificação específica nos registros de ocorrência policial faz com que esses crimes de ódio sejam diluídos em categorias genéricas de agressão ou injúria, mascarando a motivação real do ataque e impedindo a elaboração de políticas públicas eficazes para o seu combate.

Efeitos

Gera a fragmentação do tecido social e o aumento da violência letal contra estrangeiros. A xenomisia produz sociedades fechadas e paranoicas, que desperdiçam a riqueza da troca cultural em favor de uma homogeneidade estéril. No nível político, serve de combustível para movimentos autoritários e populistas que utilizam o ódio ao imigrante como ferramenta de coesão eleitoral. Juridicamente, a impunidade dos atos de xenomisia sinaliza que o estrangeiro é um sujeito com menos direitos, o que encoraja novas agressões. Psicologicamente, o efeito sobre quem odeia é o estreitamento do horizonte humano, enquanto para quem é odiado, o efeito é o exílio espiritual dentro de um país que deveria ser de acolhimento.

Referências (BR)

  • Suely Rolnik
  • Muniz Sodré
  • Denise Bessa Roman

Referências (Internacionais)

  • Julia Kristeva
  • Achille Mbembe
  • Theodor Adorno

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