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Etnocentrismo

Tendência de elevar o próprio grupo étnico ou cultura ao centro de tudo, utilizando os próprios valores e padrões como régua única para julgar, desvalorizar ou considerar exóticas outras culturas.

culturaantropologiaidentidadepreconceito

Definição

O etnocentrismo é uma visão de mundo onde o grupo de quem observa é tomado como o centro de tudo e todos os outros são medidos e pensados em relação a ele. Este conceito, fundamental na antropologia e popularizado por Everardo Rocha no Brasil, descreve o fenômeno onde nossos próprios hábitos, crenças e costumes são percebidos como naturais, corretos e superiores, enquanto o diferente é visto como bárbaro, primitivo, exótico ou errado. O etnocentrismo não é apenas uma preferência cultural, mas uma barreira intelectual que impede a compreensão da alteridade, transformando a diversidade humana em uma hierarquia de valores. No contexto brasileiro, o etnocentrismo manifesta-se frequentemente na desvalorização de saberes ancestrais em favor de modelos ocidentais, perpetuando uma visão de mundo que marginaliza quem não se enquadra na norma hegemônica.

Como funciona

O mecanismo funciona através de um choque de identidades fundamentado no binômio nós versus eles. Ao entrar em contato com uma cultura diferente, o indivíduo etnocêntrico não tenta compreendê-la em seus próprios termos, mas aplica imediatamente as suas categorias mentais para classificá-la. Isso gera um processo de rotulação onde a cultura do outro é definida pelo que lhe falta em relação à nossa. O etnocentrismo opera em camadas, desde a surpresa e o riso diante de um traje estranho, até formas violentas de dominação política e intelectual. Ele se sustenta na negação do relativismo cultural, ou seja, na recusa em aceitar que cada cultura possui sua própria lógica interna de funcionamento e coerência, independente de ser ou não compreensível para quem está de fora.

Exemplos

  • Desvalorização da medicina tradicional: tratar o conhecimento botânico e ritual de povos indígenas ou quilombolas como mera crendice, ignorando sua eficácia e profundidade acadêmica e empírica.

  • O calendário escolar e laboral: a imposição de feriados e rotinas baseadas exclusivamente no calendário cristão-ocidental, desconsiderando as datas sagradas e os ciclos temporais de outras matrizes religiosas e culturais.

  • Julgamento de práticas alimentares: a reação de nojo ou superioridade moral diante do consumo de insetos ou animais que não fazem parte da dieta ocidental, enquanto os nossos hábitos de consumo são vistos como inquestionáveis.

  • Imposição da língua dominante: a marginalização ou proibição de línguas indígenas ou dialetos regionais sob o argumento de que apenas o português formal é sinal de civilidade e inteligência.

Quem é afetado

Os grupos mais afetados são os povos indígenas, as comunidades de matriz africana, os povos nômades e qualquer minoria étnica cujas práticas divirjam do padrão urbano e cristão majoritário. No Brasil, o etnocentrismo é o combustível do preconceito religioso e da negação dos direitos territoriais indígenas, pois trata as formas de organização desses povos como estágios evolutivos atrasados. Além disso, imigrantes e refugiados sofrem as consequências do etnocentrismo ao serem forçados a um processo de assimilação que ignora suas bagagens culturais, exigindo que abandonem suas identidades para serem aceitos socialmente no novo país.

Por que é invisível

A invisibilidade do etnocentrismo reside na sua onipresença cotidiana. É extremamente difícil perceber que estamos sendo etnocêntricos porque raramente questionamos o que consideramos normal. Nossas tradições são ensinadas como verdades universais na escola, na mídia e na família, criando uma espécie de cegueira cultural. O etnocentrismo mascara-se de bom senso ou progresso: quando dizemos que um povo precisa ser modernizado, estamos, na verdade, impondo nossa visão de progresso como a única possível. Esta invisibilidade é o que permite que políticas de apagamento cultural sejam implementadas sob o pretexto de integração social ou desenvolvimento econômico, sem que a sociedade perceba o etnocídio silencioso que está ocorrendo.

Efeitos

Gera o isolamento cultural, a intolerância e a justificação para atos de dominação e violência. No nível intelectual, o etnocentrismo produz um conhecimento distorcido sobre a humanidade, pois ignora as contribuições de culturas não hegemônicas para a ciência, a filosofia e a arte. Socialmente, fomenta a polarização e o ódio, transformando o estranhamento em medo e o medo em agressão. Em termos estruturais, o etnocentrismo impede a construção de sociedades verdadeiramente pluriculturais, pois as instituições são desenhadas para servir a um único modelo de cidadão, excluindo todos os que possuem lógicas de existência divergentes.

Referências (BR)

  • Everardo Rocha
  • Gilberto Velho
  • Roque de Barros Laraia

Referências (Internacionais)

  • William Graham Sumner
  • Claude Lévi-Strauss
  • Bronislaw Malinowski

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