Geoblocking
Prática discriminatória de bloquear acesso ou alterar preços de conteúdos e serviços online com base na localização geográfica (IP) do usuário, prejudicando o Sul Global.
Definição
Geoblocking (bloqueio geográfico) e Geopricing (precificação geográfica) são práticas comerciais digitais que restringem o acesso a conteúdos ou alteram as condições de compra com base na localização física do usuário, identificada pelo seu endereço IP. Embora muitas vezes justificada por questões de direitos autorais ou logística, essa prática configura uma forma de discriminação de consumo que afeta desproporcionalmente o Sul Global. No contexto do colonialismo digital, o geoblocking funciona como uma fronteira invisível: usuários de países periféricos pagam o mesmo valor (ou até mais caro, proporcionalmente à renda) por serviços de streaming, software ou acesso à informação, mas recebem catálogos reduzidos, recursos bloqueados ou versões lite dos produtos. É a manutenção da hierarquia geopolítica no ciberespaço, onde a cidadania digital plena é reservada ao Norte Global.
Como funciona
O sistema detecta o IP do usuário no momento da conexão e aplica filtros automáticos. Se o IP for brasileiro, por exemplo, o site pode: 1) Bloquear o acesso: Este vídeo não está disponível em sua região. 2) Redirecionar forçadamente: Jogar o usuário para uma loja local com preços mais altos e menos opções, impedindo-o de acessar a loja global/americana. 3) Recusar pagamento: Bloquear cartões de crédito emitidos em determinados países, mesmo que sejam internacionais. 4) Ofertar preços dinâmicos: Mostrar um preço de passagem aérea ou hotel mais caro para quem acessa do Brasil do que para quem acessa da Europa, explorando a falta de transparência.
Exemplos
Streaming Manco: Um assinante da Netflix ou Disney+ no Brasil paga uma mensalidade similar à dos EUA, mas tem acesso a um catálogo com milhares de filmes a menos devido a travas regionais de licenciamento.
Turismo Discriminatório: Um brasileiro tenta reservar um hotel em Paris e vê o preço de €200. Um francês, acessando o mesmo site no mesmo minuto, vê o preço de €150. O site identifica a origem do acesso e cobra o custo Brasil digital.
Bloqueio de Notícias: Sites de notícias europeus ou americanos bloqueiam totalmente o acesso de IPs brasileiros para não terem que lidar com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) ou regulações locais, deixando o usuário brasileiro no escuro.
Quem é afetado
Afeta massivamente consumidores de países em desenvolvimento, pesquisadores (que perdem acesso a bases de dados globais), turistas e pequenas empresas que tentam competir no mercado global mas são barradas por plataformas que não aceitam seus métodos de pagamento ou localização. No Brasil, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) já multou empresas de turismo por essa prática, reconhecendo-a como abusiva à luz do Código de Defesa do Consumidor.
Por que é invisível
É invisível porque é técnica e automatizada. O usuário raramente sabe que está sendo discriminado; ele acha que o site é assim mesmo ou que o produto está esgotado. Sem o uso de VPNs (que mascaram a localização), é impossível para o consumidor médio saber que está vendo uma versão piorada da internet. Além disso, a narrativa de proteção de direitos autorais legitima o bloqueio, escondendo o fato de que muitas vezes a motivação é puramente a segmentação de mercado para maximização de lucro (vender mais caro onde a concorrência é menor).
Efeitos
Os efeitos são a fragmentação da internet (o fim da promessa de uma rede mundial única), a exclusão cultural (países periféricos consomem cultura do centro, mas não acessam a diversidade global) e o prejuízo econômico (pagar mais por menos). A longo prazo, reforça a dependência tecnológica: somos usuários passivos de plataformas que não controlamos e que decidem unilateralmente o que podemos ou não acessar em nosso próprio território.
