Fishing expedition
Prática investigativa ilegal e abusiva onde o Estado realiza buscas indiscriminadas (devassa) contra um indivíduo sem causa provável, na esperança de encontrar qualquer delito.
Definição
Fishing expedition (ou pescaria probatória) é uma prática investigativa especulativa e ilegal. Ocorre quando agentes do Estado (polícia, Ministério Público) lançam a rede sobre a vida de um cidadão sem ter um objeto definido ou indícios concretos de crime, na esperança de pescar qualquer irregularidade que justifique a perseguição. Diferente de uma investigação legítima, que parte de um fato criminoso para buscar provas, a fishing expedition parte da vontade de incriminar alguém para buscar o fato. É uma inversão da lógica processual: primeiro escolhe-se o alvo, depois procura-se o crime. Essa devassa na intimidade (quebras de sigilo bancário, fiscal, telefônico, buscas e apreensões genéricas) viola frontalmente o princípio da causa provável e transforma o cidadão em objeto de escrutínio permanente, onde quem procura, acha (mesmo que seja um delito administrativo menor não relacionado ao motivo original).
Como funciona
O mecanismo baseia-se na serendipidade forçada. O Estado solicita, por exemplo, um mandado de busca e apreensão na casa de um indivíduo sob pretexto de investigar um suposto crime ambiental, mas apreende todos os celulares e computadores para devassar a vida financeira, sexual e política do alvo, buscando crimes de corrupção ou lavagem de dinheiro que não existiam na denúncia inicial. Se o Estado não encontra nada sobre o crime ambiental, mas encontra um erro na declaração de imposto de renda, usa-se isso para processar o alvo. A autoridade joga verde para colher maduro, utilizando o aparato estatal para vasculhar a vida privada até encontrar algo que possa ser usado como munição jurídica ou política.
Exemplos
Apreensão de Celular: A polícia apreende o celular de um suspeito de furto de galinha e, sem autorização judicial específica, acessa conversas de WhatsApp de 5 anos atrás para tentar encontrar uma ligação com tráfico de drogas.
Mandado Genérico: O juiz expede mandado de busca e apreensão para quaisquer documentos ou objetos ilícitos na casa de um investigado, permitindo que a polícia leve diários, fotos pessoais e documentos de terceiros que não têm relação com a investigação.
Abordagem de Trânsito: Parar um carro numa blitz de trânsito e desmontar o veículo inteiro ou revistar as malas de todos os passageiros sem que haja qualquer indício de crime (cheiro de droga, denúncia), apenas para ver se acha alguma coisa.
Devassa Fiscal: A Receita Federal abre uma auditoria completa nos últimos 10 anos de uma empresa logo após seu dono publicar críticas ao governo, buscando qualquer erro contábil para aplicar multas, sem indício prévio de sonegação.
Quem é afetado
Atinge qualquer cidadão, mas é frequentemente utilizada como ferramenta de lawfare (guerra jurídica) contra adversários políticos, ativistas, empresários ou inimigos da administração pública. No entanto, também afeta cidadãos comuns em abordagens policiais abusivas: a polícia para um jovem negro na rua sem fundada suspeita (atitude suspeita genérica) e revasta seu celular, suas mensagens e fotos na esperança de encontrar uma foto de droga ou arma para justificar a prisão a posteriori. É a lógica do primeiro prendo/investigo, depois justifico.
Por que é invisível
É invisível porque se reveste de legalidade burocrática. As medidas (buscas, quebras de sigilo) são solicitadas ao Judiciário com justificativas vagas ou genéricas (necessidade da instrução penal), e muitos juízes deferem sem exigir a delimitação do objeto. A sociedade, movida pelo punitivismo (quem não deve não teme), tende a aplaudir a devassa, sem perceber que a anulação da privacidade de um coloca em risco a liberdade de todos. Só se percebe a gravidade quando a prova é anulada nos tribunais superiores (STJ/STF) por ilicitude, momento em que a opinião pública muitas vezes acusa a justiça de soltar bandidos, sem entender que a prova foi obtida de forma inconstitucional desde a origem.
Efeitos
Os efeitos são a insegurança jurídica e a destruição da reputação. Mesmo que nulidades sejam declaradas anos depois, o alvo já sofreu a exposição midiática da busca e apreensão (polícia na porta às 6h da manhã) e teve sua vida privada exposta. Gera um efeito inibidor (chilling effect) na sociedade: as pessoas deixam de exercer direitos ou criticar o poder por medo de se tornarem alvos de uma pescaria probatória. Juridicamente, a consequência correta é a nulidade de todas as provas obtidas (teoria dos frutos da árvore envenenada), mas até que isso ocorra, o cidadão pode passar anos defendendo-se de acusações fabricadas a partir de sua própria intimidade violada.
Referências (BR)
- Alexandre Morais da Rosa
- Aury Lopes Jr.
- Salah H. Khaled Jr.
