Desinformação
Novo marcador social de desigualdade que redistribui riscos e aprofunda vulnerabilidades históricas através da circulação desigual de informações confiáveis.
Definição
A desinformação, em contextos marcados por desigualdades históricas profundas como o Brasil, transcende a simples circulação de notícias falsas ("fake news") para se configurar como um novo marcador social. Tradicionalmente, as desigualdades são analisadas através de prismas como renda, raça, gênero e território — que, conforme a teoria da interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw, se sobrepõem e potencializam opressões. A desinformação soma-se a esse quadro não como um elemento neutro, mas como um vetor que redistribui riscos e vulnerabilidades.
Ela atua como uma barreira invisível que impede o exercício pleno da cidadania, definindo quem tem acesso a dados confiáveis para a tomada de decisão e quem é deixado à mercê de narrativas manipuladas. O acesso à informação verídica torna-se, portanto, um privilégio que demarca fronteiras de sobrevivência e autonomia. O Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, identifica a desinformação como o principal risco global de curto prazo para as democracias, mas seus efeitos são sentidos de forma desproporcional nas periferias do capitalismo.
Como funciona
O mecanismo da desinformação opera através da exploração de vazios informacionais. Em territórios onde o Estado é ausente e a mídia tradicional tem pouca penetração ou credibilidade, redes sociais (como WhatsApp e Instagram) tornam-se a infraestrutura primária de comunicação. A desinformação preenche lacunas deixadas pela falta de políticas públicas de comunicação, circulando com velocidade em ambientes de alta confiança interpessoal, mas baixa verificação institucional.
Pesquisas como a "Territórios Digitais" (projeto GriôTech) revelam que, nesses espaços, a circulação de notícias falsas não é recebida passivamente. Existe um paradoxo: embora as plataformas digitais sejam as principais fontes, a confiança nelas é limitada. A validação da informação ocorre através da "autoridade da proximidade" — a consulta a lideranças comunitárias, agentes de saúde e redes de vizinhança. A desinformação, portanto, tenta sequestrar esses laços de confiança, mimetizando a linguagem e as preocupações locais para semear pânico ou desmobilização política.
Exemplos
O paradoxo da confiança no WhatsApp: Em comunidades onde o Estado falha, correntes de WhatsApp sobre "ameaças iminentes" (ex: ataques a escolas, novas doenças) paralisam a rotina local, fechando comércios e escolas com base em boatos.
A vigilância ativa comunitária: No Quilombo Santa Rita do Bracuí, a comunidade desenvolveu protocolos próprios de verificação, onde nenhuma informação externa é aceita sem a validação de lideranças tradicionais (Griôs) ou agentes de saúde locais.
A exclusão por "zero-rating": Usuários que recebem uma notícia alarmista via rede social mas não possuem franquia de dados para abrir o link da matéria completa ou pesquisar no Google, ficando restritos apenas à manchete sensacionalista ou ao áudio manipulado.
Quem é afetado
Os grupos mais afetados são aqueles já vulnerabilizados por outros marcadores sociais: moradores de favelas, quilombos e aldeias indígenas. No Brasil, exemplos como o Quilombo Santa Rita do Bracuí (RJ) e a Aldeia Multiétnica Filhos da Terra (SP) ilustram como a exclusão digital (falta de pacotes de dados, dispositivos precários) amplifica os danos da desinformação.
Dados do Cetic.br (TIC Domicílios 2025) mostram que cerca de 64 milhões de brasileiros ficam sem acesso à internet por falta de dados móveis, dependendo de planos de "zero-rating" que privilegiam o uso de aplicativos de mensagens em detrimento da navegação na web aberta para checagem de fatos. Isso cria um "cercadinho informacional" onde a desinformação circula livremente sem o contraponto da verificação externa, atingindo desproporcionalmente as classes D e E.
Por que é invisível
A desinformação como marcador social é invisibilizada porque é frequentemente tratada como um problema técnico ou educacional ("falta de letramento digital"), ignorando suas raízes estruturais. A narrativa dominante tende a culpar a vítima, sugerindo que as populações vulneráveis são "ingênuas" ou "incapazes" de discernir a verdade.
Essa visão oculta a realidade material da exclusão: não se trata de incapacidade cognitiva, mas de precariedade infraestrutural. Quando o acesso à internet é intermitente e limitado a aplicativos específicos, a capacidade de checagem é tecnicamente bloqueada. Além disso, a invisibilidade é reforçada pela ausência desses territórios nos grandes debates sobre regulação de plataformas, que raramente consideram as especificidades da navegação na periferia global.
Efeitos
- Aprofundamento de desigualdades em saúde: Decisões críticas sobre vacinação e tratamentos são baseadas em boatos, aumentando a mortalidade em grupos vulneráveis.
- Erosão da confiança comunitária: A desinformação semeia discórdia interna, enfraquecendo laços de solidariedade essenciais para a sobrevivência em territórios periféricos.
- Manipulação política localizada: Campanhas de desinformação micro-direcionadas desmobilizam votos ou incitam violência contra lideranças locais.
- Ambivalência tecnológica: Criação de uma relação de medo e curiosidade com novas tecnologias (como IA), vista simultaneamente como ferramenta de controle e potencial educativo.
Referências (BR)
- Marcelle Chagas do Monte
- Instituto Peregum
- Observatório GERATE
Referências (Internacionais)
- Kimberlé Crenshaw
- Mozilla Foundation
- Fórum Econômico Mundial
