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Vulnerabilidade epistêmica

Condição de sujeitos cujas capacidades de produzir e transmitir conhecimento são sistematicamente desacreditadas ou invalidadas por estruturas de opressão.

conhecimentociênciasilenciamentocolonialidade

Definição

A vulnerabilidade epistêmica descreve a condição de fragilidade a que certos grupos são submetidos no campo da validação do conhecimento e de seus próprios relatos. Não se trata de uma limitação intelectual, mas de um processo social onde o testemunho de pessoas negras, indígenas, mulheres ou pessoas LGBTQIA+ é recebido com desconfiança sistemática ou simplesmente ignorado. A filósofa Miranda Fricker introduziu o conceito de injustiça epistêmica para explicar como o preconceito impede que um ouvinte reconheça quem fala como um sujeito de conhecimento confiável. No Brasil, Sueli Carneiro amplia essa discussão através da ideia de epistemicídio, que identifica a destruição ativa de formas de saber não ocidentais e a negação da capacidade de sujeitos racializados de serem produtores de ciência e pensamento crítico.

Como funciona

O mecanismo opera através da desqualificação prévia do sujeito. Antes mesmo que a pessoa comece a falar, o sistema de crenças do interlocutor, muitas vezes moldado pela branquitude ou pelo patriarcado, já atribui um déficit de credibilidade àquela fala. Isso se manifesta em ambientes acadêmicos onde saberes ancestrais são rotulados como folclore enquanto teses eurocêntricas são chamadas de ciência universal. Funciona também por meio da expropriação, onde pesquisadores de grupos dominantes utilizam dados e vivências de grupos vulnerabilizados para construir carreiras, sem conferir o devido reconhecimento ou voz a quem produziu a experiência original.

Exemplos

  • Descrédito em diagnósticos médicos: quando pacientes negros ou mulheres relatam dores e sintomas que são minimizados ou atribuídos a fatores emocionais, resultando em diagnósticos tardios por falta de escuta ativa.

  • Exclusão de bibliografias negras e indígenas: a ausência sistemática de autores não brancos nas ementas universitárias, reforçando a ideia de que o pensamento sofisticado é uma exclusividade europeia.

  • Desqualificação de relatos jurídicos: a tendência de authorities em dar maior peso ao testemunho de policiais ou pessoas brancas em contraste com os relatos de vítimas periféricas, perpetuando a impunidade.

  • Invalidação da experiência vivida: o uso de estatísticas distantes para refutar o relato direto de uma comunidade sobre a violência que sofre, tratando a vivência concreta como mera evidência emocional ou anedótica.

Quem é afetado

Sujeitos racializados, mulheres em ambientes técnicos, populações tradicionais e pessoas com deficiência são os grupos mais atingidos. A vulnerabilidade epistêmica atinge a confiança intelectual desses grupos, produzindo o que Kristie Dotson chama de silenciamento forçado, no qual o sujeito desiste de falar por perceber que suas palavras serão distorcidas ou tratadas como irrelevantes no debate público.

Por que é invisível

A invisibilidade decorre da pretensa neutralidade da ciência e das instituições de ensino. Alega-se que o conhecimento é validado por critérios puramente objetivos, ignorando que quem define esses critérios ocupa posições de privilégio histórico. Além disso, a vulnerabilidade é mascarada pela representatividade pontual, onde se permite a entrada de uma única pessoa de um grupo vulnerável em um espaço de destaque para validar um sistema que continua excluindo a maioria e ignorando seus saberes coletivos.

Efeitos

Gera o empobrecimento do debate público e a perpetuação de políticas sociais ineficazes, pois quem vive os problemas não é ouvido como autoridade sobre sua própria realidade. Culturalmente, produz um apagamento histórico onde as contribuições de grupos oprimidos para a tecnologia, a arte e a medicina são esquecidas ou atribuídas a terceiros. Individualmente, acarreta a síndrome do impostor e o isolamento de intelectuais periféricos que não encontram eco para suas produções em canais oficiais de validação acadêmica.

Referências (BR)

  • Sueli Carneiro
  • Djamila Ribeiro
  • Joaze Bernardino-Costa

Referências (Internacionais)

  • Miranda Fricker
  • Kristie Dotson
  • José Medina

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