Isso tem nome
Voltar para Verbetes

Violência policial

Uso desproporcional, ilegal ou excessivo da força por agentes do Estado, operando como um mecanismo de controle social que atinge majoritariamente corpos negros e territórios periféricos.

segurança públicadireitos humanosracismo estruturalestado

Definição

A violência policial é o exercício abusivo do monopólio do uso da força pelo Estado, manifestando-se através de execuções sumárias, tortura, agressões físicas e humilhações verbais cometidas por agentes de segurança pública. No Brasil, este fenômeno é indissociável do racismo estrutural e da herança autoritária das instituições, funcionando não como um erro de percurso, mas como uma tecnologia de governo para a gestão da pobreza. Michel Misse utiliza o conceito de incriminação preventiva para explicar como certas identidades (especialmente homens jovens e negros) são pré-julgadas como perigosas antes mesmo de qualquer ato ilícito, legitimando a violência letal. Jacqueline Muniz ressalta que a falta de controle civil e a militarização da segurança pública transformam o policiamento em uma lógica de guerra, onde o cidadão periférico é tratado como o inimigo interno a ser eliminado ou domado.

Como funciona

O mecanismo opera através de uma discricionariedade sem controle, onde o agente de ponta decide quem deve ser abordado, revistado ou morto baseando-se em vieses subjetivos e racistas. A estrutura militarizada das polícias brasileiras incentiva o confronto em detrimento da inteligência, premiando a letalidade em vez da preservação da vida. Funciona também através da arquitetura de impunidade: os autos de resistência (atualmente chamados de morte decorrente de intervenção policial) servem frequentemente como uma licença para matar, onde a palavra do policial é aceita como verdade absoluta e as cenas de crime são alteradas antes da perícia. O sistema é retroalimentado por um judiciário que raramente condena agentes do Estado e por uma retórica política que sustenta que bandido bom é bandido morto, higienizando socialmente o extermínio.

Exemplos

  • Chacinas em operações policiais: incursões em favelas que resultam em múltiplas mortes sem o objetivo de prisão ou apreensão, servindo apenas como demonstração de força e punição coletiva do território.

  • Invasão de domicílio sem mandado: a prática comum de agentes de segurança entrarem em casas de moradores de periferia sem autorização judicial, desrespeitando a inviolabilidade do lar garantida pela Constituição.

  • O kit flagrante: a prática ilegal de policiais plantarem armas ou drogas com vítimas de execução para forjar um cenário de confronto e justificar judicialmente o uso da força letal.

  • Abordagem seletiva por perfilamento: a parada sistemática de jovens negros em locais públicos para revistas humilhantes, baseada apenas na atitude suspeita derivada da cor da pele e do modo de vestir, enquanto pessoas brancas em situações similares não são interpeladas.

Quem é afetado

A violência policial atinge de forma avassaladora a juventude negra e pobre das favelas e periferias urbanas. Dados anuais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública confirmam que a grande maioria das vítimas de letalidade policial possui o mesmo perfil racial, evidenciando um filtro seletivo de morte. No entanto, o impacto estende-se a toda a comunidade periférica, que vive sob o trauma constante da invasão de domicílios, do tiroteio indiscriminado e do desrespeito cotidiano. Afeta também as mães e familiares das vítimas, que iniciam lutas por justiça muitas vezes marcadas por novas camadas de ameaças e silenciamentos, gerando um dano psicossocial geracional em territórios inteiros que são privados da proteção estatal e submetidos apenas ao braço armado e punitivo do Estado.

Por que é invisível

A invisibilidade da violência policial reside na sua legitimação por parte de setores da classe média e da mídia, que aceitam a suspensão de direitos fundamentais desde que ela ocorra lá, no território periférico. O discurso do combate às drogas mascara o controle populacional racializado, transformando a violência do Estado em uma guerra necessária. Além disso, o medo de represálias impede que muitas comunidades denunciem abusos cotidianos, criando um silêncio forçado. A linguagem técnica oficial também contribui para essa invisibilidade, utilizando termos eufemísticos para descrever execuções e tratando crimes cometidos por policiais como casos isolados ou desvios de conduta, evitando enfrentar a natureza sistêmica e institucional da violência.

Efeitos

Os efeitos incluem a erosão da democracia, pois o Estado de direito deixa de existir para uma parcela significativa da população. A violência policial gera desconfiança profunda nas instituições e afasta as comunidades da cooperação com a justiça. No nível social, alimenta ciclos de ódio e vingança, além de produzir uma legião de órfãos e sobreviventes traumatizados. Estruturalmente, a letalidade policial funciona como uma ferramenta de manutenção da hierarquia racial, garantindo que certos corpos permaneçam confinados à precariedade ou ao extermínio, impedindo a plena integração cidadã e o exercício da soberania popular em territórios controlados pelo medo.

Referências (BR)

  • Michel Misse
  • Jacqueline Muniz
  • Orlando Zaccone
  • Luiz Eduardo Soares

Referências (Internacionais)

  • Alex Vitale
  • Angela Davis
  • Loïc Wacquant

Temas relacionados