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Violência epistêmica

Forma de agressão estrutural que invalida, silencia ou ignora a capacidade de sujeitos subalternizados produzirem conhecimento e falarem por si mesmos. Ocorre quando o sistema de pensamento dominante estabelece critérios de 'verdade' que excluem sistematicamente as perspectivas e racionalidades de grupos oprimidos.

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Definição

Definição Completa

A violência epistêmica é um conceito central nos estudos pós-coloniais, popularizado pela teórica indiana Gayatri Spivak no ensaio "Pode o subalterno falar?". Ela descreve a violência exercida pelo discurso dominante que, ao tentar descrever o "outro" (o colonizado, a mulher, o negro, o indígena), acaba por silenciá-lo, pois impõe categorias de análise estrangeiras à sua realidade.

Diferente do Epistemicídio, que é o resultado final (a morte do saber), a violência epistêmica é a mecânica cotidiana da desqualificação. É o que ocorre quando o saber acadêmico ocidental se coloca como o único juiz universal, tratando outras formas de compreender o mundo como primitivas ou inválidas. Como aponta Sueli Carneiro, essa violência é fundamental para a supremacia branca, pois retira das populações negras o direito de serem sujeitos da própria narrativa.

Diferença entre Violência Epistêmica e Epistemicídio

Embora correlatos, os conceitos operam em dimensões distintas:

  • A Violência Epistêmica é o método de execução da exclusão. É a invalidação ativa do discurso (ex: afirmar que um conhecimento quilombola ou indígena não tem valor por não seguir o método positivista). É o ato de silenciar e desqualificar o sujeito enquanto falante.
  • O Epistemicídio é o resultado ou o estado final. É a morte, o desaparecimento e o ocultamento institucionalizado desses saberes. Se a violência é o tiro, o epistemicídio é o cadáver.

Em suma, a violência é o processo cotidiano de agressão ao saber; o epistemicídio é o silêncio absoluto gerado por essa agressão ao longo do tempo.

Como funciona

O mecanismo opera através da hierarquização dos saberes. O sistema educacional e científico estabelece o "norte global" como o centro produtor de teoria, enquanto o "sul global" é visto apenas como fornecedor de dados ou objetos de estudo.

A violência manifesta-se no descrédito da palavra do sujeito subalternizado — o que Miranda Fricker chama de injustiça testemunhal — onde o relato de uma pessoa negra ou indígena é recebido com desconfiança sistemática em tribunais ou consultórios médicos. Funciona também através da tradução forçada: o saber ancestral é "traduzido" para termos ocidentais, perdendo seu sentido original para se adequar ao paladar da cultura hegemônica.

Quem é afetado

As principais vítimas são os povos colonizados e seus descendentes, mulheres, populações indígenas e comunidades tradicionais. No Brasil, pesquisadores negros e indígenas enfrentam essa violência constantemente ao tentarem introduzir suas cosmologias e autores em currículos universitários engessados por uma tradição eurocêntrica.

Afeta também o cidadão comum que, ao procurar serviços públicos, tem sua forma de falar e de expressar sua dor ignorada por profissionais que não reconhecem legitimidade em linguagens que fogem à norma culta ou técnica.

Por que é invisível

A violência epistêmica é invisível porque está camuflada sob o manto da "neutralidade científica" e da "objetividade". A sociedade é educada para acreditar que existe apenas uma forma de produzir verdade e que esta forma é apolítica. Ao tratar métodos de exclusão como "rigor acadêmico", a instituição mascara o racismo e o sexismo intelectual.

Além disso, ela se torna invisível pelo fenômeno da injustiça hermenêutica, onde o sujeito oprimido muitas vezes não possui as ferramentas conceituais reconhecidas pelo sistema para dar nome à sua própria opressão.

Efeitos

  • Alienação Intelectual: O grupo oprimido é convencido de que não produz saber, o que o leva a abandonar sua cultura em busca da assimilação pelo mundo do opressor.
  • Destruição da Autoestima Cognitiva: Gera o sentimento de incompetência intelectual coletiva.
  • Tutela Acadêmica: Garante que políticas públicas continuem sendo feitas "para" os grupos marginalizados, mas nunca "com" eles, mantendo-os como objetos de estudo e nunca como autores.

Exemplos

  • Invalidação de medicinas tradicionais: Tratar conhecimentos milenares de pajés e benzedeiras apenas como "crendice", até que um laboratório internacional patenteie a substância, transformando-a em "ciência".
  • Hegemonia citacional: Bancas acadêmicas que exigem referências europeias para validar teses sobre a realidade brasileira, ignorando intelectuais locais.
  • Desqualificação da queixa médica: Profissionais que subestimam a dor de mulheres negras baseados em estereótipos de "resistência física", praticando racismo clínico.
  • Currículos Eurocêntricos: O ensino de história que inicia no "descobrimento", rotulando milênios de civilizações indígenas anteriores como "pré-história".

Como funciona

O mecanismo opera através da hierarquização dos saberes. O sistema educacional e científico estabelece o "norte global" como o centro produtor de teoria, enquanto o "sul global" é visto apenas como fornecedor de dados ou objetos de estudo.

A violência manifesta-se no descrédito da palavra do sujeito subalternizado — o que Miranda Fricker chama de injustiça testemunhal — onde o relato de uma pessoa negra ou indígena é recebido com desconfiança sistemática em tribunais ou consultórios médicos. Funciona também através da tradução forçada: o saber ancestral é "traduzido" para termos ocidentais, perdendo seu sentido original para se adequar ao paladar da cultura hegemônica.

Exemplos

  • Invalidação de medicinas tradicionais: Tratar conhecimentos milenares de pajés e benzedeiras apenas como "crendice", até que um laboratório internacional patenteie a substância, transformando-a em "ciência".

  • Hegemonia citacional: Bancas acadêmicas que exigem referências europeias para validar teses sobre a realidade brasileira, ignorando intelectuais locais.

  • Desqualificação da queixa médica: Profissionais que subestimam a dor de mulheres negras baseados em estereótipos de "resistência física", praticando racismo clínico.

  • Currículos Eurocêntricos: O ensino de história que inicia no "descobrimento", rotulando milênios de civilizações indígenas anteriores como "pré-história".

Quem é afetado

As principais vítimas são os povos colonizados e seus descendentes, mulheres, populações indígenas e comunidades tradicionais. No Brasil, pesquisadores negros e indígenas enfrentam essa violência constantemente ao tentarem introduzir suas cosmologias e autores em currículos universitários engessados por uma tradição eurocêntrica.

Afeta também o cidadão comum que, ao procurar serviços públicos, tem sua forma de falar e de expressar sua dor ignorada por profissionais que não reconhecem legitimidade em linguagens que fogem à norma culta ou técnica.

Por que é invisível

A violência epistêmica é invisível porque está camuflada sob o manto da "neutralidade científica" e da "objetividade". A sociedade é educada para acreditar que existe apenas uma forma de produzir verdade e que esta forma é apolítica. Ao tratar métodos de exclusão como "rigor acadêmico", a instituição mascara o racismo e o sexismo intelectual.

Além disso, ela se torna invisível pelo fenômeno da injustiça hermenêutica, onde o sujeito oprimido muitas vezes não possui as ferramentas conceituais reconhecidas pelo sistema para dar nome à sua própria opressão.

Efeitos

  • Alienação Intelectual: O grupo oprimido é convencido de que não produz saber, o que o leva a abandonar sua cultura em busca da assimilação pelo mundo do opressor.
  • Destruição da Autoestima Cognitiva: Gera o sentimento de incompetência intelectual coletiva.
  • Tutela Acadêmica: Garante que políticas públicas continuem sendo feitas "para" os grupos marginalizados, mas nunca "com" eles, mantendo-os como objetos de estudo e nunca como autores.

Referências (BR)

  • Sueli Carneiro
  • Lélia Gonzalez
  • Djamila Ribeiro

Referências (Internacionais)

  • Gayatri Spivak
  • Miranda Fricker
  • Edward Said

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