Violação do corpo-território
Conceito fundamental do feminismo comunitário latino-americano que compreende o corpo – especialmente o de mulheres indígenas, negras e camponesas – como o primeiro território político e espiritual. A violação do corpo-território descreve como a violência sexual e a exploração física são utilizadas como estratégias deliberadas de conquista, controle e desestruturação de comunidades inteiras.
Definição
O conceito de corpo-território é uma contribuição teórica e política fundamental do feminismo comunitário latino-americano, articulado por pensadoras como Lorena Cabnal (Guatemala) e Julieta Paredes (Bolívia). Ele estabelece que não existe separação ontológica entre o corpo individual e o território geográfico: a defesa da terra passa, obrigatoriamente, pela defesa da integridade física e espiritual das mulheres que a habitam.
A violação do corpo-território, portanto, é descrita não apenas como um crime sexual, mas como uma tecnologia de guerra e dominação. O ataque ao corpo das mulheres racializadas visa desmoralizar a comunidade, romper linhagens ancestrais e facilitar a expropriação de recursos naturais, tratando ambos — corpo e terra — como objetos de conquista disponíveis ao capital e ao patriarcado colonial.
Como explica a antropóloga Rita Segato, a violência contra as mulheres nesses contextos obedece a um "mandato de masculinidade" e funciona como uma pedagogia da crueldade: o corpo feminino torna-se o bastidor onde a guerra é escrita, enviando uma mensagem de poder soberano aos homens da comunidade rival e ao Estado.
Como funciona
A violação opera em duas escalas indissociáveis:
- Escala do Corpo (Primeiro Território): Através da violência sexual, esterilização forçada ou controle reprodutivo, busca-se aniquilar a autonomia da mulher e sua função de guardiã da memória e da cultura.
- Escala da Terra (Território Histórico): A violência física contra as mulheres sinaliza a vulnerabilidade de todo o grupo. Quando as mulheres — que frequentemente lideram a defesa territorial e a segurança alimentar — são atacadas, a capacidade de resistência coletiva à invasões (de garimpeiros, madeireiros ou militares) é drasticamente reduzida.
Exemplos
Mineração e Garimpo Ilegal: A correlação direta entre a instalação de garimpos em terras Yanomami e Munduruku e a explosão de casos de violência sexual contra mulheres e meninas indígenas.
Conflitos Armados: O uso estupro sistemático na Guatemala durante a guerra civil (caso Sepur Zarco) como estratégia para destruir a resistência do povo Maya Q'eqchi'.
Estratégia Militar na Ditadura: O uso da violência sexualizada contra presas políticas como forma de "correção" ideológica e moral.
Ataques a Lideranças Quilombolas: Onde a violência contra as mulheres da comunidade é utilizada para desmobilizar a luta pela titulação das terras.
Quem é afetado
As principais vítimas são mulheres indígenas, negras, quilombolas e camponesas. Para a ativista indígena brasileira Célia Xakriabá, "falar de corpo-território é falar da nossa existência", denunciando que o genocídio indígena começa pelo ataque aos corpos das mulheres que sustentam as aldeias.
Por que é invisível
É invisível porque o sistema jurídico eurocêntrico fragmenta a realidade: trata o estupro como "crime privado" e a grilagem como "crime patrimonial", falhando em ver a conexão estratégica entre eles. Além disso, a visão colonial desumaniza essas mulheres, naturalizando a violência contra seus corpos como "parte do cenário" de fronteiras econômicas em expansão.
Efeitos
- Desestruturação do Tecido Social: A vergonha e o trauma impostos pela violação sexual visam quebrar a solidariedade interna das comunidades.
- Adoecimento Espiritual e Físico: O trauma é compreendido como uma doença que afeta a harmonia coletiva, exigindo processos de cura (sanación) que sejam também políticos.
- Êxodo e Desterritorialização: O medo da violência específica de gênero é uma das principais causas de migração forçada de mulheres rurais para periferias urbanas.
Referências (BR)
- Célia Xakriabá
- Kena Azevedo Chaves
- Sueli Carneiro
Referências (Internacionais)
- Rita Segato
- Lorena Cabnal
- Julieta Paredes
- Silvia Federici
