Trote acadêmico
Rito de passagem institucionalizado no ensino superior que, sob o pretexto de integração, submete calouros a práticas de hierarquização, humilhação pública, violência física e coerção psicológica.
Definição
O trote acadêmico (ou estudantil) designa o conjunto de rituais de iniciação impostos pelos estudantes veteranos aos calouros (ingressantes) em instituições de ensino, predominantemente no nível superior. Embora discursivamente apresentado como um mecanismo de boas-vindas e integração à comunidade universitária, o fenômeno opera historicamente como um dispositivo de poder e diferenciação hierárquica.
A origem do termo remonta às universidades medievais europeias, onde a entrada do novato era associada à necessidade de "desbestialização". Etimologicamente, a palavra "trote" no Brasil deriva da domesticação de equinos (o ato de fazer o cavalo trotar), simbolizando a submissão e o adestramento do recém-chegado. Em Portugal, a prática é conhecida como "praxe". Sociologicamente, configura-se como uma forma de violência simbólica, conceito de Pierre Bourdieu, onde a dominação é exercida com a cumplicidade de quem a sofre, naturalizando a agressão como preço necessário para o pertencimento ao grupo.
Como funciona
O trote opera através de uma estrutura rígida de poder onde os veteranos detêm autoridade absoluta sobre os calouros, frequentemente chamados de "bixos" (termo que reforça a conotação de animalidade e falta de civilidade). O funcionamento baseia-se em três pilares:
- Coerção e Consenso: O calouro é pressionado a participar para não sofrer isolamento social. A recusa é vista como arrogância ou inaptidão para a vida comunitária.
- Rituais de Humilhação: Atividades que visam despir o indivíduo de sua identidade anterior (cortar cabelo, pintar o corpo, usar roupas ridículas, marchar, pedir dinheiro na rua).
- Pacto de Silêncio: As violências sofridas são minimizadas ou ocultadas em nome da tradição e da lealdade à instituição, dificultando denúncias e punições.
Exemplos
Caso Edison Tsung Chi Hsueh (1999): Calouro de Medicina da USP encontrado morto na piscina da universidade após um trote violento, tornando-se um marco na discussão sobre a criminalização da prática no Brasil.
Trote das "Caldas" (Portugal): Práticas abusivas em universidades portuguesas que, embora regulamentadas como "praxe", frequentemente resultam em humilhações públicas e abusos de poder.
Violência de Gênero em Faculdades de Medicina: Relatos recorrentes de alunas obrigadas a simular atos sexuais ou expostas a linguajar degradante em competições e festas universitárias organizadas por veteranos.
Obrigatoriedade de Bebida: Coerção para ingestão forçada de grandes quantidades de álcool ou misturas nocivas ("kit bixo"), levando a casos de coma alcoólico.
Quem é afetado
O alvo primário são os estudantes ingressantes (calouros) de universidades públicas e privadas. No entanto, a intensidade da violência varia conforme o perfil do estudante e do curso:
- Recortes de Gênero e Sexualidade: Mulheres e estudantes LGBTQIA+ são frequentemente alvos de trotes com conotação sexual, assédio e objetificação.
- Recortes de Raça e Classe: Estudantes negros e bolsistas podem sofrer violências específicas que reforçam estigmas racistas e classistas, mascaradas de "brincadeira".
- Cursos de Prestígio: Cursos tradicionais e elitizados (como Medicina, Direito e Engenharia) tendem a apresentar trotes mais violentos e hierarquizados, ligados à manutenção de status e tradição corporativista.
Por que é invisível
A invisibilidade do trote violento sustenta-se na naturalização da tradição. A sociedade e a própria comunidade acadêmica muitas vezes encaram os excessos como "brincadeiras que saíram do controle" ou "casos isolados", ignorando o caráter estrutural da prática.
Existe também uma cumplicidade institucional. Universidades muitas vezes se omitem de fiscalizar ou punir severamente os agressores para evitar escândalos que manchem a reputação da instituição. Além disso, a ideia de que "eu sofri, logo tenho o direito de fazer sofrer" perpetua o ciclo de violência geracionalmente, transformando a vítima de hoje no algoz de amanhã.
Efeitos
As consequências do trote acadêmico ultrapassam o momento da recepção:
- Traumas Psicológicos: Desenvolvimento de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e aversão ao ambiente acadêmico.
- Evasão Escolar: Abandono do curso por estudantes que não suportam a pressão ou a humilhação, impactando especialmente alunos de camadas populares que lutaram para ingressar.
- Violência Física e Morte: Casos extremos resultam em lesões corporais graves, coma alcoólico e óbitos (frequentemente por afogamento ou intoxicação).
- Reprodução de Opressões: Fortalecimento de culturas machistas, racistas e homofóbicas dentro do ambiente intelectual que deveria combatê-las.
Referências (BR)
- Antonio Zuin
- Paulo Denisar Fraga
Referências (Internacionais)
- Pierre Bourdieu
- Arnold van Gennep
