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Tecnochauvinismo

Crença ideológica de que soluções tecnológicas são sempre superiores a alternativas humanas ou sociais, ignorando a complexidade, os vieses e os limites dos sistemas computacionais.

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Definição

Tecnochauvinismo é um conceito cunhado pela jornalista de dados e pesquisadora Meredith Broussard em sua obra Artificial Unintelligence: How Computers Misunderstand the World (2018). O termo descreve a crença inabalável de que a tecnologia — especialmente a computação e a inteligência artificial — é sempre a solução superior para qualquer problema, seja ele social, político ou educacional.

Essa ideologia pressupõe que sistemas digitais são inerentemente mais objetivos, eficientes e neutros do que os seres humanos. O tecnochauvinismo ignora que computadores são máquinas matemáticas limitadas que não compreendem nuances sociais, e que seus algoritmos são construídos por pessoas suscetíveis a preconceitos e falhas. Ao priorizar o código em detrimento da interação humana, essa mentalidade reduz problemas complexos a variáveis processáveis, frequentemente exacerbando as desigualdades que promete resolver.

Como funciona

A lógica tecnochauvinista opera através de três mecanismos principais:

  1. Reducionismo de dados: converte experiências humanas complexas em métricas simples que podem ser computadas, perdendo o contexto vital no processo.
  2. Presunção de objetividade: trata o resultado algorítmico como uma "verdade matemática" incontestável, ocultando as decisões humanas e os vieses embutidos no design do software.
  3. Substituição indiscriminada: promove a automatização de tarefas que exigem empatia, julgamento ético e compreensão contextual (como ensino, policiamento ou assistência social), sob a justificativa de "eficiência".

Exemplos

  • O resgate na caverna da Tailândia (2018): enquanto mergulhadores especialistas arriscavam suas vidas, Elon Musk propôs um minissubmarino de alta tecnologia. O dispositivo foi rejeitado pelos líderes da operação como "sofisticado, mas impraticável" para as condições da caverna, ilustrando a tentativa de impor uma solução tecnológica onde a expertise humana era superior.

  • Sistemas de recrutamento automatizado: ferramentas que filtram currículos baseadas em palavras-chave e padrões de contratações passadas, frequentemente descartando candidatos qualificados de minorias porque o histórico da empresa favorecia homens brancos.

  • Policiamento preditivo: softwares que indicam onde a polícia deve patrulhar baseados em dados de crimes passados, criando um ciclo de feedback que superpolicia comunidades negras e pobres, validando estatisticamente o preconceito policial.

Quem é afetado

Os grupos historicamente marginalizados são os mais prejudicados pelo tecnochauvinismo. Quando sistemas automatizados "cegos à cor" ou "neutros" são implementados em áreas como justiça criminal, crédito bancário ou recrutamento, eles tendem a reproduzir e amplificar discriminações preexistentes nos dados de treinamento. Além disso, trabalhadores cujas funções são automatizadas sem consideração pela qualidade do serviço ou pelo impacto social também são vítimas diretas dessa mentalidade.

Por que é invisível

O tecnochauvinismo é difícil de identificar porque está entrelaçado com a narrativa moderna de progresso. A sociedade foi condicionada a associar "digital" e "inteligente" a "melhor". A complexidade técnica dos sistemas de IA cria uma barreira de entendimento (uma "caixa preta"), onde apenas especialistas conseguem auditar o funcionamento da tecnologia, enquanto o público geral aceita os resultados como mágicos ou infalíveis.

Efeitos

  • Desumanização de serviços essenciais: atendimento automatizado em saúde ou seguridade social que falha em entender casos atípicos ou de crise.
  • Amplificação de desigualdades: algoritmos que negam oportunidades com base em padrões estatísticos discriminatórios.
  • Desperdício de recursos: investimento massivo em "gadgets" e softwares para problemas que seriam melhor resolvidos com mudanças políticas ou sociais (como tentar resolver a falta de moradia com um aplicativo).
  • Erosão da responsabilidade: quando algo dá errado, a culpa é atribuída a uma "falha no sistema" em vez de decisões humanas e políticas.

Referências (BR)

  • Tarcízio Silva
  • Sérgio Amadeu da Silveira
  • DigiLabour

Referências (Internacionais)

  • Meredith Broussard
  • Evgeny Morozov
  • Joseph Weizenbaum

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