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Sharenting

Prática abusiva de pais, responsáveis e adultos em geral que compartilham excessivamente fotos, vídeos e dados de crianças nas redes sociais, criando uma pegada digital e permanente.

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Definição

Sharenting (neologismo que funde share + parenting) não é apenas postar foto de filho, mas uma forma contemporânea de violação de privacidade e construção compulsória de identidade. É a superexposição sistemática da criança por quem deveria protegê-la que são os adultos. Antes de saber falar ou andar, a criança já tem uma persona digital curada pelos pais, com milhares de fotos, vídeos de banho, choros, birras e momentos íntimos expostos a uma audiência global. Diferente dos álbuns de família físicos, que eram privados e afetivos, o sharenting transforma a intimidade da criança em conteúdo para engajamento dos pais, muitas vezes visando likes, parcerias comerciais ou validação social de bons pais, ignorando o direito da criança à imagem e ao esquecimento.

Como funciona

Funciona através da espetacularização da rotina. O pai ou mãe saca o celular diante de qualquer evento (da primeira papinha ao tombo no parquinho) e publica instantaneamente. A criança aprende desde cedo que para ser validada, precisa ser filmada (olha pra câmera). O perigo reside na permanência e na falta de controle: uma foto de banho fofa pode parar em redes de pedofilia (conceito de sequestro digital), ou um vídeo de uma birra engraçada pode virar meme e perseguir a criança na escola (cyberbullying) anos depois. É uma expropriação da narrativa de vida: quando a criança crescer, sua história já terá sido contada publicamente, sem seu consentimento prévio.

Exemplos

  • A monetização do choro: Pais que filmam o filho chorando ou levando uma bronca e postam com legendas engraçadinhas para gerar engajamento, humilhando a criança publicamente.

  • O ultrassom no Facebook: A criação de perfis em redes sociais para o feto antes mesmo do nascimento, roubando da criança o direito de decidir se quer ou não entrar na vida digital.

  • Influenciadores mirins: Crianças que ganham recebidos e têm rotinas de gravação exaustivas, sendo cobradas por performance como adultos, mas sem direitos trabalhistas.

  • Sequestro digital: Quando fotos inocentes de crianças na praia são roubadas de perfis abertos dos pais e usadas em catálogos de adoção ilegal ou sites pornográficos (deepfakes).

Quem é afetado

Atinge todas as crianças da geração Alfa, mas com gravidade extrema nos filhos de influenciadores parentais. Nesses casos, a criança não é apenas exposta, ela trabalha. Sua imagem sustenta a casa. Ela precisa sorrir, fazer unboxings e performar felicidade para manter os contratos de publicidade dos pais. Isso configura trabalho infantil artístico não regulamentado. Mas afeta também filhos de anônimos, que terão de lidar no futuro com o embaraço de ter seus momentos mais vulneráveis eternizados no Google. Psicologicamente, cria uma dependência de aprovação externa e uma dificuldade de viver momentos offline, onde a experiência vale por si mesma e não pelo registro.

Por que é invisível

É invisível porque é normalizado como amor e orgulho. Criticar uma mãe que posta dez fotos do filho por dia é visto como inveja ou intromissão. A sociedade do espetáculo nos convenceu de que o que não é postado não existiu. Além disso, as plataformas (Instagram, TikTok) incentivam agressivamente esse comportamento com algoritmos que privilegiam rostos de bebês e cenas familiares. O limite entre registro de memória e exploração de imagem é tênue e subjetivo, o que dificulta a tipificação legal do abuso, embora o ECA e a LGPD já ofereçam bases para entender a imagem da criança como dado sensível que requer proteção máxima, não exposição máxima.

Efeitos

Os efeitos incluem a criação de uma pegada digital indelével que pode prejudicar a criança no futuro (ex: seguradoras ou empregadores acessando dados de saúde postados na infância). Gera ansiedade e pressão estética precoce. Há também o risco físico real: o over-sharing de localização (escola, clube, rotina) facilita a ação de sequestradores e criminosos. No nível subjetivo, a criança pode sentir que não é amada pelo que é, mas pelo número de likes que traz para os pais, desenvolvendo uma personalidade narcisista ou, inversamente, uma fobia social e aversão à própria imagem.

Referências (BR)

  • Filipe Medon
  • Thelma Alves de Oliveira
  • Instituto Alana
  • Fabiani Borges

Referências (Internacionais)

  • Stacey Steinberg
  • Leah Plunkett

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