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Pântano alimentar

Áreas urbanas com alta densidade de estabelecimentos que comercializam predominantemente alimentos ultraprocessados, sobrecarregando o ambiente com opções não saudáveis que superam massivamente a oferta de alimentos frescos.

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Definição

O pântano alimentar é um conceito que descreve ambientes onde a oferta de alimentos ultraprocessados é tão densa e onipresente que sufoca o acesso a alimentos saudáveis. Diferente do deserto alimentar, que foca na ausência de comida fresca, o pântano alimentar foca na superabundância de calorias vazias e produtos industriais de baixo custo. O termo é considerado por pesquisadores da Unifesp e da USP como mais adequado para descrever grandes metrópoles brasileiras, onde mercadinhos, lanchonetes de fast-food e lojas de conveniência saturam o território, tornando a alimentação saudável uma tarefa de resistência contra o ambiente. Nestas áreas, o indivíduo está mergulhado em um ecossistema que incentiva permanentemente o consumo de sódio, açúcar e gorduras saturadas, tornando a obesidade e as doenças crônicas consequências quase inevitáveis do meio urbano.

Como funciona

O mecanismo opera através da saturação comercial e do marketing de proximidade. Empresas de ultraprocessados ocupam todos os espaços de visibilidade: desde as prateleiras na altura dos olhos de crianças até as fachadas coloridas de pequenos comércios locais. O pântano funciona por meio da vantagem competitiva: enquanto uma fruta fresca tem durabilidade curta e preço variável, o produto ultraprocessado tem longa vida de prateleira, preço estável e embalagens projetadas para serem atraentes. Em bairros periféricos, a proporção entre lojas que vendem apenas ultraprocessados e locais que vendem vegetais frescos pode chegar a níveis alarmantes de dez para um. Isso cria uma pressão psicológica e econômica onde o esforço para manter uma dieta equilibrada exige tempo, deslocamento e dinheiro que a maioria da população não possui disponível.

Exemplos

  • Proliferação de lanchonetes de ultraprocessados em terminais de ônibus: locais de grande fluxo onde a única opção rápida e barata para o trabalhador em trânsito são alimentos fritos ou ultraprocessados.

  • Vizinhança saturada: um quarteirão que dispõe de três lojas de conveniência e cinco lanchonetes, mas nenhum estabelecimento que venda uma maçã ou uma alface.

  • Preços promocionais de combos: estratégias de marketing em áreas pobres onde um refrigerante de dois litros é vendido por um valor próximo ao de um quilo de fruta, incentivando a substituição calórica.

  • O mercado de guloseimas no caixa: estabelecimentos de bairro que organizam toda a área de espera do cliente com produtos ultraprocessados, induzindo a compra por impulso em ambientes onde não há oferta de itens frescos para contraponto.

Quem é afetado

As famílias de baixa renda moradoras de periferias urbanas são as mais impactadas, especialmente as crianças e adolescentes em idade de formação de hábitos alimentares. O pântano alimentar atinge severamente as regiões onde o poder público falha em regular o uso do solo e em incentivar a instalação de sacolões ou feiras livres. Pesquisas da Unifesp mostram que o aumento da exposição a esses ambientes está diretamente correlacionado ao aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) das comunidades, revelando que a saúde individual é, na verdade, um reflexo da saúde do território. Mulheres trabalhadoras, que frequentemente enfrentam a dupla jornada, são as mais pressionadas pelo ambiente a adotar soluções ultraprocessadas rápidas e baratas para a alimentação familiar.

Por que é invisível

A invisibilidade do pântano alimentar reside na falsa sensação de abundância. Como há muita comida disponível, a sociedade tende a acreditar que não há um problema de acesso, confundindo o ato de estar com o estômago cheio com o ato de estar nutrido. A lógica liberal reforça a ideia de que o consumo de ultraprocessados é uma questão de preferência pessoal ou falta de disciplina, ignorando as barreiras ambientais que tornam a alimentação saudável uma exceção estatística. Além disso, as prefeituras raramente utilizam dados de saúde nutricional para as políticas de licenciamento comercial, permitindo que bairros já vulneráveis recebam uma carga ainda maior de estabelecimentos nocivos sem qualquer contrapartida ou restrição de zoneamento.

Efeitos

Gera a epidemia de doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão e diabetes, em idades cada vez mais precoces. O pântano alimentar produz a chamada desnutrição oculta, onde o indivíduo apresenta excesso de peso mas sofre com deficiência severa de micronutrientes essenciais. Socialmente, o fenômeno aprofunda o estigma contra pessoas gordas periféricas, cujos corpos são punidos por um ambiente que foi deliberadamente desenhado para ser obesogênico. Economicamente, o pântano transfere os custos do lucro imenso da indústria de ultraprocessados para o sistema público de saúde, que precisa lidar com as consequências de longo prazo de um território que adoece seus moradores todos os dias através da boca.

Referências (BR)

  • Daniela Silva Canella
  • Patricia Constante Jaime
  • Inês Rugani

Referências (Internacionais)

  • LaVonna Blair Lewis
  • Kimberly Morland
  • Kelly Brownell

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