Misoginia
Ódio ou aversão sistemática às mulheres, base psicológica do patriarcado para validar a violência de gênero.
Definição
A misoginia é o ódio, desprezo ou preconceito sistemático contra mulheres. Diferente do machismo, que é um sistema de crenças sobre a superioridade masculina, a misoginia opera como o braço punitivo do patriarcado, exercendo hostilidade contra mulheres que desafiam as normas de gênero. Ela se manifesta em uma escala que vai desde comentários depreciativos e piadas hostis até a violência física extrema e o feminicídio.
A filósofa Kate Manne descreve a misoginia como a polícia do patriarcado, cuja função é vigiar e punir mulheres que saem dos papéis tradicionais de cuidado e submissão. No Brasil, o debate é fortalecido por vozes como a de Lola Aronovich, que documenta o discurso de ódio misógino em ambientes digitais.
Como funciona
A misoginia funciona através de um sistema de recompensas e punições. Mulheres que performam a feminilidade esperada e servem aos interesses masculinos podem receber uma proteção benevolente, enquanto as que buscam autonomia, exercem poder ou expressam sexualidade livre são alvos de hostilidade intensa.
Nas instituições e no debate público, ela se manifesta pela desqualificação intelectual e moral. Quando uma mulher ocupa um cargo de destaque, a misoginia atua focando em seu corpo, sua roupa ou sua vida privada, em vez de debater suas ideias.
Exemplos
Mansplaining agressivo: silenciar e desmoralizar o conhecimento técnico de uma mulher em público.
Slut-shaming: criticar uma mulher baseando-se em sua vida sexual ou vestimenta.
Hostilidade digital coordenada: campanhas de ódio contra jornalistas e ativistas feministas.
Punição pelo sucesso: aumento da violência quando a mulher ganha mais que o parceiro.
Quem é afetado
As principais afetadas são as mulheres cis e trans, de todas as idades e classes sociais. O impacto é agravado pela raça, onde mulheres negras sofrem a fusão da misoginia com o racismo (misoginoir). Homens também são afetados de forma indireta, pois a misoginia impõe uma masculinidade rígida que proíbe qualquer traço lido como feminino.
Por que é invisível
A misoginia é invisibilizada pela sua naturalização na cultura popular e no humor. Piadas sobre a incapacidade feminina são tratadas como inofensivas, quando na verdade são reforços diários da hierarquia de gênero.
Apesar da existência da Lei Maria da Penha (2006) e da Lei do Feminicídio (2015), a misoginia em si ainda não é tipificada como crime no Brasil. Isso significa que o ódio sistemático a mulheres, quando não resulta em violência física direta, permanece sem enquadramento legal específico. Em 2024, o país registrou mais de 1.400 feminicídios, uma média de quase 4 mulheres assassinadas por dia. Quando a raiz desse ódio não é nomeada e criminalizada, a mensagem social que prevalece é a de que a misoginia é exagero, opinião ou liberdade de expressão. A ausência de um tipo penal específico legitima o agressor, silencia a vítima e, no limite, mata.
Efeitos
Feminicídio e violência física: O ápice da misoginia é a eliminação física da mulher. Autoexclusão e medo: Mulheres deixam de ocupar espaços públicos ou posições de liderança. Adoecimento mental: Ansiedade crônica, depressão e TEPT. Desigualdade econômica: Menores salários e oportunidades.
Referências (BR)
- Lola Aronovich
Referências (Internacionais)
- Kate Manne
