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Micromachismos

Pequenos gestos, comentários e atitudes cotidianas que perpetuam a desigualdade de gênero de forma sutil e muitas vezes invisível. Embora pareçam inofensivos isoladamente, funcionam como a 'base do iceberg' da violência contra a mulher, naturalizando o controle masculino.

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Definição

O termo Micromachismos foi cunhado pelo psicoterapeuta argentino Luis Bonino em 1991 para descrever as "microviolências" que passam despercebidas no dia a dia. Não são "micro" porque são pouco importantes, mas porque são capilares, sutis e quase imperceptíveis, operando nas entrelinhas das relações sociais e afetivas.

Ao contrário da violência física explícita, o micromachismo não deixa marcas visíveis no corpo, mas corrói lentamente a autoestima e a autonomia da mulher. Ele se manifesta em piadas "inocentes", na interrupção constante da fala feminina, na suposição de incompetência técnica ou na delegação automática de tarefas de cuidado (como servir o café na reunião ou organizar a festa da empresa) para as mulheres, independentemente de seu cargo.

Como funciona

Bonino classifica os micromachismos em três tipos principais:

  1. Coercitivos: O uso da força moral ou econômica para dobrar a vontade da mulher (ex: controlar o dinheiro da casa ou fazer "cara feia" quando ela sai com amigas).
  2. Encobertos: Manipulações sutis que visam explorar o trabalho feminino ou gerar insegurança (ex: "ninguém faz isso tão bem quanto você" para se esquivar de tarefas domésticas; ou o gaslighting).
  3. De Crise: Atitudes que surgem quando a mulher aumenta seu poder pessoal (ex: "você está muito agressiva ultimamente" quando ela exige respeito ou promoção).

Exemplos

  • No Restaurante: O garçom entregar a conta automaticamente para o homem, assumindo que ele é o provedor.

  • Bropriating: Um homem repetir a ideia que uma mulher acabou de dizer na reunião e ser aplaudido por isso, enquanto ela foi ignorada.

  • Maternidade Compulsória: Perguntar constantemente a uma mulher quando ela terá filhos, ou assumir que ela não pode assumir cargos de chefia porque "tem família".

  • Interrupção (Manterrupting): Homens que interrompem sistematicamente mulheres, mas escutam atentamente outros homens.

Quem é afetado

Todas as mulheres em todos os ambientes (casa, trabalho, rua). Em ambientes corporativos e acadêmicos, manifesta-se frequentemente através do descrédito intelectual (assumir que ela não sabe do que está falando) ou da avaliação baseada na aparência e não na competência. Pesquisas indicam que mulheres negras sofrem uma carga dupla, onde o micromachismo se funde com microagressões racistas.

Por que é invisível

É invisível porque foi naturalizado como "normal", "cultural" ou "biológico". Quando uma mulher aponta um micromachismo, é frequentemente acusada de ser "exagerada", "louca" ou "histérica". A eficácia do micromachismo reside justamente nessa negação: ele opera sob o manto da brincadeira ou do cavalheirismo, tornando difícil o contra-ataque sem parecer desproporcional.

Efeitos

  • Desgaste Psicológico: A necessidade constante de provar sua competência ou de se defender de pequenas agressões gera exaustão mental (burnout).
  • Síndrome da Impostora: A repetição de que a mulher é menos capaz leva à internalização dessa inferioridade.
  • Manutenção do Status Quo: Ao minar a confiança das mulheres no cotidiano, os micromachismos garantem que elas ocupem menos espaços de poder e liderança.

Referências (BR)

  • Lia Zanotta Machado
  • Daniela Pedroso
  • Valeska Zanello

Referências (Internacionais)

  • Luis Bonino
  • Pierre Bourdieu

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