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Medicalização da menopausa

Processo pelo qual experiências naturais da menopausa são enquadradas como doença que requer intervenção médica, patologizando uma fase normal da vida feminina.

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Definição

A medicalização da menopausa é o processo socio-médico pelo qual uma fase biológica natural e universal do ciclo de vida feminino — o fim do período reprodutivo — é redefinida como uma "doença de deficiência hormonal" que exige obrigatoriamente intervenção e "cura" farmacológica. Trata-se de uma forma de controle sobre o corpo feminino que patologiza o envelhecimento, transformando sintomas que podem ser manejados de forma integral em justificativas para o uso indiscriminado de hormônios sintéticos. Esse processo não visa apenas o bem-estar da mulher, mas alimenta um mercado bilionário da juventude química, reforçando a ideia de que a mulher só tem valor social enquanto é fértil ou enquanto "parece jovem".

A antropóloga Margaret Lock é uma referência mundial ao demonstrar, através de estudos comparativos (como entre mulheres japonesas e canadenses), que a experiência da menopausa é profundamente moldada pela cultura; em sociedades onde o envelhecimento feminino é respeitado, os sintomas físicos são relatados com menos sofrimento. No Brasil, Valeska Zanello e Sandra Caponi analisam como a medicalização funciona como um "dispositivo de gênero" que silencia as causas sociais da angústia da mulher madura — como a sobrecarga de cuidado e a invisibilidade social — tratando tudo como um "problema de estrogênio" a ser corrigido em consultório.

Como funciona

A dinâmica funciona por meio da construção do medo e do déficit. O mecanismo opera criando uma narrativa onde a menopausa é o início da "decadência física e cognitiva", associando-a à perda da libido, ao ganho de peso e à irritabilidade, sem considerar o contexto de vida da mulher. O sistema médico foca exclusivamente na reposição química, muitas vezes ignorando abordagens nutricionais, físicas e terapêuticas que respeitem o tempo do corpo. A pressão por "continuar funcionando" no mercado de trabalho e nas relações sexuais obriga a mulher a buscar a medicalização para mascarar o cansaço legítimo de uma fase de transição.

O mecanismo utiliza também a invalidação da subjetividade. Quando a mulher relata desconfortos, o médico frequentemente ignora as tensões acumuladas pela dupla jornada ou pelo machismo estrutural, reduzindo toda a queixa à flutuação hormonal. Isso gera o que se chama de "medicalização do descontentamento": a insatisfação social da mulher com seu lugar na sociedade é tratada como uma patologia biológica. O sistema é mantido pela publicidade farmacêutica que utiliza imagens de "mulheres jovens e vibrantes" para convencer a mulher madura de que o envelhecimento natural é um fracasso pessoal que deve ser evitado a qualquer custo através do consumo de pílulas ou gel.

Exemplos

  • A consulta de "dez minutos": Um médico que, diante da queixa de insônia de uma mulher de 50 anos, prescreve reposição hormonal imediata sem perguntar sobre sua sobrecarga de trabalho ou estresse familiar.

  • O marketing da "juventude eterna": Propagandas de gel de testosterona ou estrogênio que prometem "recuperar a mulher que você era aos 20 anos", tratando a mulher atual como uma versão estragada de si mesma.

  • A patologização da sexualidade madura: Tratar a mudança natural do desejo sexual como "disfunção" a ser medicada, em vez de um convite para novas formas de intimidade e diálogo com o parceiro.

  • O diagnóstico de depressão para o luto da fertilidade: Tratar o processo emocional de despedida da fase reprodutiva como um transtorno psiquiátrico, em vez de uma vivência humana legítima que demanda tempo e acolhimento.

Quem é afetado

As mulheres na maturidade (geralmente entre os 45 e 60 anos) são as vítimas diretas, sofrendo com a ansiedade de "perderem o valor" e com os riscos colaterais de tratamentos hormonais prescritos sem avaliação criteriosa. Mulheres negras enfrentam uma camada extra de negligência, pois muitas vezes seus sintomas são subestimados ou não recebem a mesma atenção preventiva que mulheres brancas. A medicalização afeta também a autonomia das mulheres sobre seus próprios corpos, que passam a depender de diagnósticos externos para validar o que sentem, perdendo o vínculo com os sinais naturais de seus ciclos biológicos.

A sociedade como um todo perde ao desvalorizar a sabedoria e a presença política das mulheres maduras. Ao tratar a menopausa apenas como uma crise médica, a sociedade retira desse período o seu potencial de potência, onde a mulher, desonerada das obrigações da reprodução, poderia assumir novos papéis de liderança e criatividade. O custo dessa medicalização é alto para os sistemas públicos de saúde, que gastam com tratamentos paliativos de longo prazo enquanto ignoram políticas de acolhimento e escuta. Além disso, a cultura do "rejuvenescimento obrigatório" gera gerações de mulheres exaustas por tentarem corresponder a um padrão estético impossível para a sua idade biológica.

Por que é invisível

A medicalização da menopausa é invisibilizada por estar camuflada como "progresso científico e direito à saúde". É difícil questionar a patologização quando ela é vendida como "libertação dos sintomas". No entanto, a invisibilidade reside no fato de que não se pergunta por que esses sintomas são tão intoleráveis em nossa sociedade atual: porque vivemos em um ritmo que não aceita pausas e que pune qualquer sinal de amadurecimento físico. A invisibilidade é mantida pelo tabu em torno do envelhecimento feminino; como a menopausa é vista como algo "feio" ou "triste", as mulheres não conversam sobre ela coletivamente, aceitando o diagnóstico médico individual como a única verdade possível.

Além disso, a invisibilidade decorre da naturalização do binarismo saúde/fértil e doença/estéril. A cultura ocidental herdou uma visão médica que vê o corpo feminino exclusivamente através da lente da reprodução; quando esta cessa, o corpo é lido como "quebrado". Essa lógica é tão profunda que mesmo mulheres feministas podem ter dificuldade de perceber a medicalização como uma violência simbólica. A invisibilidade só é rompida quando movimentos de saúde das mulheres trazem o conceito de "climaterio" como uma transição vital e política, exigindo que a medicina trate a mulher como um ser completo e não apenas como um invólucro de hormônios em declínio.

Efeitos

  • Dependência crônica de medicamentos: Uso de hormônios e antidepressivos por décadas sem resolução das causas estruturais do mal-estar.
  • Aumento de riscos de saúde: Prescrição indiscriminada que pode elevar riscos de câncer de mama ou problemas cardiovasculares em perfis não adequados.
  • Erosão da autoestima e autonomia: A mulher passa a ver seu corpo como um "inimigo" que precisa de conserto constante para ser aceitável.
  • Perda de ritos de passagem: A negação do amadurecimento impede que a mulher vivencie o encerramento de um ciclo e o início de outro com dignidade e consciência.

Referências (BR)

  • Valeska Zanello
  • Sandra Caponi

Referências (Internacionais)

  • Margaret Lock
  • Germaine Greer
  • Barbara Ehrenreich

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