Heteropatriarcado
Sistema onde o poder é concentrado em homens cisgêneros e heterossexuais, reforçando essa dominação através de todas as instituições.
Definição
O heteropatriarcado é o sistema que entrelaça duas opressões fundamentais: o domínio dos homens sobre as mulheres e pessoas não-binárias (patriarcado) e a imposição da heterossexualidade como única norma aceitável de existência (heteronormatividade). Segundo teóricas como Lélia Gonzalez, não se trata apenas de "preconceito" individual, mas de uma estrutura colonial de poder que organiza a sociedade. Neste sistema, o sujeito universal de direitos é o homem, branco, cisgênero e heterossexual. Tudo que foge dessa norma é considerado "desvio", "doença" ou "subalterno".
O conceito explica por que a violência contra mulheres e a violência contra pessoas LGBTQIA+ têm a mesma raiz: a manutenção de uma ordem onde o masculino hegemônico deve controlar corpos, sexualidades e a reprodução.
Como funciona
Funciona através da divisão sexual e binária do mundo. Desde o nascimento, indivíduos são classificados em caixas rígidas (homem/mulher) e espera-se que cumpram papéis específicos: homens devem ser provedores, viris e dominantes; mulheres devem ser cuidadoras, submissas e disponíveis sexualmente para homens.
A engrenagem principal é a vigilância de gênero. Homens que demonstram fragilidade ou afeto são punidos ("isso é coisa de mulherzinha"), e mulheres que demonstram independência excessiva são rotuladas ("mal-amada", "sapatão"). O sistema recompensa quem segue o script e pune, muitas vezes com violência física, quem o transgride.
Exemplos
Leis antigas: Até 2005, o Código Penal brasileiro usava o termo "mulher honesta" para definir quem poderia ser vítima de estupro, excluindo trabalhadoras sexuais ou mulheres "livres".
A "cura gay": Tentativas de patologizar e "corrigir" a orientação sexual, reforçando que a heterossexualidade é a única saúde possível.
A pergunta "quem é o homem da relação?": Feita a casais lésbicos ou gays, tentando enquadrar relacionamentos diversos na lógica binária heterossexual.
Diferença salarial: Mulheres ganhando menos que homens na mesma função, baseada na suposição arcaica de que o salário feminino é apenas um "complemento" ao do marido provedor.
Quem é afetado
- Mulheres (todas): São submetidas a salários menores, tripla jornada de trabalho e violência doméstica.
- População LGBTQIA+: Sofre com a exclusão familiar, precariedade laboral e crimes de ódio ("estupro corretivo", assassinatos), pois sua existência desafia a lógica reprodutiva do sistema.
- Homens que não performam a masculinidade hegemônica: Homens gays, afeminados ou sensíveis também são alvos de violência para "aprenderem a ser homens".
Por que é invisível
É invisível porque é naturalizado como "biologia" ou "tradição". Aprendemos que "homem é assim mesmo" e que a família nuclear tradicional é a única estrutura possível de amor e cuidado. A religião e a mídia frequentemente reforçam o heteropatriarcado como uma ordem divina ou natural, obscurecendo o fato de que é uma construção política histórica.
Efeitos
- Epidemia de violência doméstica: A crença na posse masculina sobre o corpo feminino.
- Invisibilidade lésbica e trans: A negação de direitos e reconhecimento civil para configurações familiares não-heterossexuais.
- Adoecimento masculino: A repressão emocional exigida pelo heteropatriarcado gera altos índices de suicídio, alcoolismo e comportamentos de risco entre homens, que não podem pedir ajuda sob pena de parecerem fracos.
Referências (BR)
- Rita Segato
Referências (Internacionais)
- Gerda Lerner
