Guerra
Condição permanente de violência organizada que transcende o campo de batalha, afetando civis e estruturando relações de poder globais.
Definição
A guerra, na contemporaneidade, deixou de ser apenas um evento bélico limitado entre exércitos estatais para se tornar uma condição social difusa e persistente. O conceito clássico de Clausewitz — "a continuação da política por outros meios" — ganha novas camadas com o que a socióloga Mary Kaldor define como "Novas Guerras": conflitos que envolvem uma mistura de atores estatais e não estatais (milícias, terroristas, empresas de segurança privada), motivados tanto por ideologia quanto por lucro predatório.
Mais do que a disputa por territórios, a guerra moderna opera como uma máquina de necropolítica (conceito de Achille Mbembe), onde o poder soberano se manifesta na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Ela não tem mais um "início e fim" claros, transformando-se em um estado permanente de exceção que reordena a economia, a tecnologia e a subjetividade das populações, muitas vezes longe das trincheiras tradicionais.
Como funciona
A guerra atual funciona através de um modelo híbrido. O combate físico é apenas uma das frentes; ele ocorre simultaneamente à guerra de informação (fake news, propaganda), à guerra econômica (sanções, bloqueios) e à guerra cibernética (ataques a infraestruturas críticas).
Diferente das "velhas guerras", onde o objetivo era a captura militar do inimigo, nas novas guerras a estratégia muitas vezes envolve a desestabilização social e o controle de recursos através do medo. A violência é dirigida intencionalmente contra a população civil para provocar deslocamentos em massa (limpeza étnica ou política) e destruir o tecido social. O financiamento desses conflitos frequentemente se dá através de economias ilícitas e transnacionais, tornando a guerra um "negócio" lucrativo para elites locais e globais, o que desincentiva a paz.
Exemplos
Guerra Rússia-Ucrânia: Um conflito de alta intensidade que combina táticas da Segunda Guerra (trincheiras, artilharia) com drones, ciberguerra e uma intensa disputa narrativa global, reativando medos nucleares e redesenhando alianças geopolíticas.
Conflitos em Gaza: Exemplo de guerra assimétrica e urbana, onde a distinção entre alvo militar e civil se dissolve, resultando em altíssimas taxas de mortalidade civil e destruição habitacional.
Guerras "contra as drogas": Em países como Brasil e México, a retórica de guerra é usada para justificar operações militares em favelas que produzem números de mortes equiparáveis a zonas de conflito oficial.
Quem é afetado
Historicamente, as guerras matavam mais soldados do que civis. No século XXI, essa proporção se inverteu drasticamente: estima-se que 90% das vítimas das guerras modernas sejam civis. Mulheres e crianças são desproporcionalmente afetadas, sendo alvos de violência sexual sistemática usada como arma de guerra para humilhar a comunidade inimiga.
Além das vítimas diretas dos bombardeios, há os refugiados e deslocados internos, que perdem suas casas, histórias e cidadania. O impacto atinge também populações distantes do fronte, através da inflação de alimentos, crises energéticas e instabilidade econômica global — como visto na crise de grãos gerada pelo conflito na Ucrânia.
Por que é invisível
A guerra torna-se invisível através de sua espetacularização e sanitização. A cobertura midiática hegemônica tende a apresentar a guerra como um "videogame", com imagens aéreas de "ataques cirúrgicos" que escondem o sangue e o sofrimento humano real.
Existe também uma hierarquia de empatia: guerras na Europa (como a da Ucrânia) recebem cobertura exaustiva e humanizada, enquanto conflitos devastadores no Sul Global (como no Iêmen, Sudão ou Palestina) são frequentemente ignorados ou tratados como "naturais" e "inevitáveis" devido a preconceitos raciais e coloniais. Essa invisibilidade seletiva permite que certas violências perpetuem-se sem pressão internacional por resolução.
Efeitos
- Destruição de infraestrutura vital: Hospitais, escolas e redes de água são alvos frequentes, gerando crises humanitárias que matam mais do que as balas (fome, doenças).
- Trauma geracional: Crianças que crescem sob bombardeios desenvolvem sequelas psicológicas profundas que perpetuam ciclos de violência.
- Ecocídio: A guerra devasta o meio ambiente através da queima de combustíveis, destruição de habitats e contaminação do solo por munições tóxicas.
- Militarização da vida cotidiana: O aumento da vigilância, o fechamento de fronteiras e a restrição de liberdades civis em nome da "segurança nacional".
Referências (BR)
- Fabiano Mielniczuk
- José Luís Fiori
Referências (Internacionais)
- Mary Kaldor
- Achille Mbembe
- Carl von Clausewitz
