Glotofobia
Discriminação sistêmica baseada na língua, variedade linguística ou sotaque de uma pessoa, onde formas de falar não padronizadas são tratadas como inferiores, incorretas ou indignas, funcionando como mecanismo de exclusão social e reprodução de desigualdades.
Definição
O termo glotofobia foi cunhado pelo sociolinguista francês Philippe Blanchet em 1998 para nomear a intolerância, o repúdio ou o desprezo dirigidos a pessoas ou grupos sociais em razão de sua língua, variedade linguística ou sotaque. Etimologicamente, provém do grego glôtta (língua) e phobos (medo/aversão), embora na definição de Blanchet o conceito vá além do medo: trata-se de uma forma estrutural de discriminação que rejeita o outro não pelo que ele é, mas por como se expressa.
No Brasil, a glotofobia encontra terreno fértil em uma sociedade marcada pela hierarquização das variedades linguísticas. Segundo Marcos Bagno, o preconceito linguístico opera como um disfarce para o preconceito social: não é o modo de falar da pessoa que é discriminado, é a própria pessoa, em sua identidade individual e social. A glotofobia transforma a língua em um bilhete de identidade que revela (e condena) a origem geográfica, a classe social, a escolaridade e, frequentemente, a cor da pele do falante.
Estruturalmente, a glotofobia funciona análoga ao racismo ou ao sexismo: estabelece uma norma dominante (a fala do sujeito branco, urbano, culto e do Sudeste) como única aceitável, desqualificando todas as outras variedades como deficientes, atrasadas ou erradas. Ela ignora que toda variação linguística é legítima e expressa a história, a cultura e a identidade de seu povo.
Como funciona
A glotofobia opera através de três mecanismos principais:
A hierarquização da norma: A sociedade impõe uma única forma "correta" de falar (a norma culta/padrão), desconsiderando que toda língua é inherentemente variável. Essa norma é, na verdade, a variedade de uma elite social específica (branca, urbana, do Sudeste), mas é apresentada como universal e objetiva. Quem não se adequa é marcado como inculto, preguiçoso ou incapaz.
A patologização do sotaque: Sotaques regionais (especialmente o nordestino) são tratados como desvios patológicos que precisam ser corrigidos. Fonoaudiólogos e coaches de oratória lucram com a "neutralização" de sotaques, enquanto recrutadores descartam candidatos por "não passarem credibilidade" (eufemismo para não falarem como a elite). Isso é particularmente agressivo com mulheres negras e periféricas, cujas falas são duplamente desqualificadas.
A violência da correção: O glotofóbico se arroga o direito de corrigir o outro em público, expondo e humilhando o falante. Esse gesto não é benigno: é uma afirmação de poder que posiciona o "corretor" como superior e o "corrigido" como inferior. Nas escolas, isso se traduz na proibição de dialetos e na violência simbólica contra crianças que falam o português brasileiro em suas variedades legítimas.
A glotofobia também funciona como proxy para outras discriminações. Rejeitar um sotaque nordestino é frequentemente uma forma de rejeitar a herança negra e indígena da região, enquanto impor a norma culta é impor uma branquitude linguística.
Exemplos
Neutralização obrigatória: Empresas que exigem que funcionários de atendimento "neutralizem" seus sotaques como condição para serem promovidos, enquanto a mesma empresa valoriza executivos estrangeiros que falam português com sotaque europeu.
Piadas sobre o modo de falar: O uso sistemático de sotaques nordestinos em programas de humor para caracterizar personagens ridículos, ignorantes ou malandros, reforçando estereótipos e naturalizando a hierarquização linguística.
Correção pública: A cena cotidiana onde uma pessoa "corrige" a pronúncia de outra em reuniões ou eventos sociais, expondo o falante e afirmando sua superioridade intelectual, muitas vezes com frases como "aqui a gente fala assim" ou "isso não existe, o certo é...".
Recrutamento seletivo: Processos seletivos que eliminam candidatos após entrevistas telefônicas pelo simples reconhecimento de um sotaque periférico ou regional, sob o argumento de que "não passam a imagem da empresa".
Violência escolar: Professores que proibem alunos de usarem expressões regionais ou populares em sala de aula, humilhando crianças que dizem "trem" em vez de "coisa" ou "arredar" em vez de "sair", tratando suas línguas maternas como defeitos a serem corrigidos.
Quem é afetado
Afeta primariamente falantes de variedades populares do português brasileiro, especialmente aqueles de regiões periféricas do poder econômico (Norte, Nordeste, Centro-Oeste). O sotaque nordestino é o mais estigmatizado, associado a estereótipos de atraso, preguiça e ignorância.
Afeta também migrantes e refugiados (haitianos, venezuelanos, bolivianos) que têm suas línguas e sotaques ridicularizados ou tratados como sinais de ilegitimidade. Imigrantes europeus ou norte-americanos, curiosamente, raramente sofrem a mesma hostilidade (o sotaque do "gringo" é até considerado charmoso), o que prova que a glotofobia tem recorte de classe e raça.
No âmbito escolar, crianças de periferias urbanas e áreas rurais são as principais vítimas, submetidas a anos de violência simbólica que as fazem internalizar a ideia de que sua fala (e, portanto, sua família e comunidade) é errada ou vergonhosa.
Mulheres são particularmente afetadas quando assumem posições de liderança: o mesmo sotaque que é "engraçado" ou "simpático" num homem é lido como "falta de preparo" numa mulher, exigindo que elas neutralizem suas marcas identitárias para serem levadas a sério.
Por que é invisível
A glotofobia é invisível porque é tratada como "correção" ou "educação" em vez de discriminação. A frase "eu só estou te ensinando a falar direito" mascara uma violência estrutural. A sociedade naturalizou a ideia de que existe uma única forma "correta" de falar e que todas as outras são "erros".
Ela também se confunde com "cuidado com a língua" ou "manutenção da qualidade do idioma", argumentos elitistas que associam a pureza linguística à preservação de uma identidade nacional imaginária. Isso faz com que a glotofobia seja praticada até por pessoas bem-intencionadas que acreditam estar "ajudando" o outro a "melhorar".
A mídia desempenha papel central na invisibilização: personagens com sotaques regionais são sistematicamente colocados em papéis cômicos, subalternos ou estereotipados, reforçando a associação entre variedade linguística e inferioridade social. Além disso, não existe tipificação legal específica para a discriminação linguística no Brasil, o que faz com que casos de glotofobia sejam diluídos em categorias genéricas ou simplesmente ignorados.
Efeitos
O efeito mais perverso é a violência simbólica internalizada: o falante passa a se enxergar através do olhar do opressor, sentindo vergonha de sua própria fala, de seus pais e de sua comunidade. Isso leva à negação da identidade, onde migrantes e seus filhos tentam esconder suas origens, mudam a forma de falar e cortam laços culturais para serem aceitos.
No campo econômico, a glotofobia funciona como barreira de mobilidade social: porteiros, garçons, domésticas e trabalhadores braçais são tolerados com seus sotaques, mas o mesmo sotaque em um cargo de chefia é visto como "falta de profissionalismo". Isso cria um "teto de vidro linguístico" que impede a ascensão de trabalhadores periféricos.
Na educação, gera fracasso escolar: crianças que chegam à escola falando uma variedade legítima do português são tratadas como analfabetas ou deficitárias, perdendo a motivação e abandonando os estudos. O sistema educacional brasileiro historicamente funciona como máquina de eliminação de variedades linguísticas, não como espaço de valorização da diversidade.
Psicologicamente, causa insegurança linguística permanente: o falante vive em estado de vigilância constante, monitorando cada palavra para não ser exposto. Isso gera ansiedade, autossilenciamento e exclusão voluntária de espaços onde se exige a norma padrão.
Referências (BR)
- Marcos Bagno
- Shirlei Baptistone
- Dermeval da Silva e Silva
Referências (Internacionais)
- Philippe Blanchet
- Pierre Bourdieu
- Rosa Maria Manchón
