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Gentrificação

Processo de transformação urbana que 'valoriza' uma área através da expulsão sistemática de moradores de baixa renda para dar lugar a classes mais altas e empreendimentos de luxo.

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Definição

A Gentrificação (do inglês gentry, "nobreza") é um fenômeno de reestruturação do espaço urbano onde bairros populares, históricos ou degradados sofrem uma intervenção — pública ou privada — que altera drasticamente seu perfil socioeconômico. Cunhado pela socióloga Ruth Glass em 1964 ao observar as mudanças em Londres, o termo descreve a substituição progressiva da classe trabalhadora por classes médias e altas.

Não se trata apenas de "melhorar" um bairro. É um processo de expulsão econômica e limpeza social. A valorização imobiliária torna a vida insustentável para os moradores originais (aumento de aluguéis, impostos e serviços), forçando-os a migrar para periferias mais distantes, enquanto o território é reapropriado pelo capital para gerar lucro. Como aponta Neil Smith, a gentrificação é a estratégia do capital para fechar o "diferencial de renda" (rent gap) em áreas potencialmente lucrativas.

Como funciona

O processo não é acidental, mas produzido por uma aliança entre Estado e mercado imobiliário. Geralmente segue etapas claras:

  1. Estigmatização e abandono: primeiro, o poder público deixa a área degradar, sucateando serviços e rotulando o local como "perigoso" ou "feio". Isso derruba os preços dos imóveis.
  2. Entrada criativa/boêmia: artistas, estudantes e jovens de classe média buscam esses locais pelos aluguéis baratos. Abrem-se cafés, ateliês e bares "descolados", mudando a imagem do bairro.
  3. Investimento pesado: grandes incorporadoras percebem o potencial e compram imóveis a preço de banana. O Estado "acorda" e anuncia obras de revitalização (parques, museus, metrô).
  4. Expulsão e substituição: com a área valorizada, os aluguéis explodem. O comércio popular (padaria, quitanda) é substituído por franquias e serviços gourmet. Os antigos moradores não conseguem mais pagar para viver ali e são despejados ou "convidados" a sair via assédio imobiliário.

Exemplos

  • Porto Maravilha (RJ): a "revitalização" da zona portuária para as Olimpíadas, que focou em museus e torres corporativas, ignorando a moradia popular e encarecendo a vida no entorno do Morro da Providência.

  • Santa Cecília e Barra Funda (SP): bairros tradicionais que viraram redutos "hipsters", onde cortiços e pensões são demolidos para dar lugar a studios de 20m² com preços exorbitantes.

  • Pelourinho (BA): processos históricos de reforma que removeram moradores negros para transformar o centro histórico em um "shopping a céu aberto" para turistas.

Quem é afetado

Diretamente a classe trabalhadora, população negra, imigrantes e idosos que construíram a identidade do bairro. No Brasil, a gentrificação tem um forte componente racial ("branqueamento"), atingindo áreas historicamente negras (como zonas portuárias) que, ao serem "revitalizadas", apagam a memória e a presença negra para vender uma imagem "global" e asséptica.

Por que é invisível

É vendida sob eufemismos sedutores como "revitalização", "regeneração urbana" ou "progresso". A estética agradável dos novos edifícios, a iluminação nova e a segurança privada seduzem a opinião pública, mascarando a violência das remoções e o sofrimento das famílias desenraizadas. A narrativa oficial diz que o bairro "morreu" e renasceu, ignorando que ele estava vivo e pulsante antes da chegada do capital.

Efeitos

  • Segregação socioespacial: A cidade torna-se um arquipélago de ilhas ricas cercadas por mares de pobreza.
  • Perda de laços comunitários: Vizinhos que se apoiavam há décadas são separados, destruindo a rede de solidariedade local.
  • Aumento da situação de rua: Muitos que são expulsos e não conseguem pagar aluguel na periferia acabam vivendo nas ruas do próprio bairro gentrificado.

Referências (BR)

  • Raquel Rolnik
  • Milton Santos
  • Ermínia Maricato

Referências (Internacionais)

  • Ruth Glass
  • Neil Smith
  • David Harvey

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