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Estupro masculino

Violência sexual contra homens, marcada pela subnotificação extrema e pelo silenciamento imposto pelo mito da virilidade, que associa a vitimização masculina à perda de masculinidade.

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Definição

O estupro masculino refere-se a qualquer ato sexual não consentido perpetrado contra uma pessoa do sexo masculino. Embora juridicamente tipificado da mesma forma que o estupro contra mulheres (Art. 213 do Código Penal Brasileiro, que abrange alguém sem distinção de gênero), socialmente o crime opera sob uma lógica distinta de invisibilidade. O fenômeno é estruturado pelo mito da virilidade, que dita que o homem, por natureza, é um ser sexualmente insaciável e fisicamente forte, tornando a ideia de vitimização sexual uma impossibilidade teórica na cabeça de muitos. Quando ocorre, a violência não é apenas física, mas simbólica: é lida pelo agressor (e muitas vezes pela sociedade) como uma forma de feminização ou aniquilação moral da vítima. Valeska Zanello aponta que, para o homem, ser penetrado ou dominado sexualmente contra a vontade equivale à perda do seu status de sujeito viril, o que gera um silenciamento profundo e vergonhoso.

Como funciona

A dinâmica do estupro masculino frequentemente envolve relações de poder hierárquicas, como em ambientes prisionais, militares, religiosos ou instituições de ensino (trotes). Diferente do estupro de mulheres, que visa a posse sexual, o estupro de homens muitas vezes visa a humilhação e a demonstração de poder do agressor sobre a vítima. Um mecanismo perverso específico é a ereção involuntária durante o abuso: devido a reflexos fisiológicos, a vítima pode ter uma ereção mesmo sob terror, o que é usado pelo agressor (e internalizado pela vítima) como prova de que ele queria ou gostou, aprofundando a culpa e impedindo a denúncia. O agressor muitas vezes é outro homem heterossexual que utiliza a violência sexual para reafirmar sua dominância alfa.

Exemplos

  • Violência corretiva ou punitiva: Estupro cometido por grupos de homens contra um homem considerado fraco ou gay para ensinar-lhe uma lição de masculinidade.

  • Abuso em contexto de confiança: Treinadores, líderes religiosos ou parentes que abusam de meninos/homens jovens sob o pretexto de iniciação ou mentoria.

  • Agressora feminina: Casos em que mulheres forçam homens ao sexo (frequentemente usando álcool/drogas ou chantagem), situação que é socialmente invalidada como sonho de todo homem, ignorando a violação do consentimento.

  • Estupro em confinamento: A violência sexual sistemática em prisões, tratada como parte natural da pena ou da hierarquia carcerária, ignorada pelo Estado.

Quem é afetado

Homens de todas as idades e orientações sexuais são vítimas, mas a vulnerabilidade aumenta em populações marginalizadas: homens gays, trans, negros, encarcerados e em situação de rua. Crianças e adolescentes do sexo masculino também são alvos frequentes, embora a notificação diminua drasticamente na entrada da vida adulta devido à pressão da masculinidade. Homens heterossexuais que sofrem estupro enfrentam o trauma adicional da crise de identidade sexual (será que sou gay porque isso aconteceu comigo?), uma vez que a sociedade confunde equivocadamente a orientação sexual da vítima com a violência sofrida.

Por que é invisível

A invisibilidade é garantida pela homofobia e pelo machismo estrutural. Delegacias e hospitais muitas vezes não estão preparados para acolher homens vítimas de violência sexual sem julgamento ou piadas. A crença popular de que homem não é estuprado, é iniciado ou sortudo (se a agressora for mulher) banaliza a violência e transforma o crime em anedota. Estatisticamente, a subnotificação é massiva: estima-se que para cada caso denunciado, dezenas permaneçam no escuro. A própria vítima se recusa a admitir o ocorrido para si mesma, preferindo enterrar o trauma a ter sua virilidade questionada publicamente.

Efeitos

Os efeitos psicológicos são devastadores e incluem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão severa, disfunção sexual, abuso de álcool e drogas, e um risco elevadíssimo de suicídio. A internalização da culpa é intensa devido à confusão entre reação fisiológica (ereção) e consentimento. Socialmente, o silêncio sobre o estupro masculino deixa inúmeros predadores sexuais impunes, permitindo que continuem fazendo vítimas. Além disso, reforça a ideia tóxica de que homens são invulneráveis, impedindo o desenvolvimento de políticas públicas de saúde e segurança voltadas especificamente para o acolhimento dessas vítimas.

Referências (BR)

  • Valeska Zanello
  • Isadora Vier Machado
  • Túlio Vianna

Referências (Internacionais)

  • Michael Kimmel
  • Dustin Stiffler

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