Dororidade
Conceito que nomeia a solidariedade e a união entre mulheres negras fundamentada na dor compartilhada do racismo e do sexismo, questionando a universalidade da sororidade do feminismo branco.
Definição
A dororidade é um conceito fundamental do pensamento feminista negro contemporâneo, cunhado pela escritora e ativista Vilma Piedade. O termo surge para preencher uma lacuna crítica no conceito de sororidade (irmandade entre mulheres), que historicamente ignorou as clivagens raciais e de classe que separam as experiências femininas. Vilma Piedade argumenta que, enquanto a sororidade pressupõe uma união baseada apenas no gênero, a dororidade reconhece que a dor provocada pelo racismo é um divisor de águas que impede uma aliança plena e automática entre mulheres brancas e negras. No Brasil, onde a hierarquia racial é profunda, a mulher branca muitas vezes ocupa o lugar de opressora da mulher negra, como exemplificado na relação histórica entre patroa e empregada doméstica. A dororidade, portanto, é a solidariedade forjada na pele, na história e na dor específica de ser mulher negra em uma sociedade estruturalmente racista.
Como funciona
O mecanismo da dororidade opera através do reconhecimento mútuo de uma ferida colonial que nunca cicatrizou. Funciona como um pacto de acolhimento e escuta entre mulheres negras que, ao compartilharem seus relatos, percebem que suas dores não são individuais, mas sistêmicas. Ao contrário da sororidade branca, que muitas vezes exige que as diferenças sejam apagadas em favor de uma pauta universal feminina, a dororidade coloca a raça no centro da análise. Ela desnaturaliza a ideia de que todas as mulheres estão no mesmo barco e revela que, muitas vezes, o privilégio da mulher branca é construído sobre a subalternização da negra. A dororidade atua como um sistema de suporte psicossocial e político que permite que mulheres negras se fortaleçam diante de uma estrutura de misoginoir que tenta desumanizá-las diariamente.
Exemplos
Grupos de acolhimento para mães de vítimas de violência policial: espaços onde a dororidade se manifesta no suporte mútuo entre mulheres que compartilham a dor da perda de filhos negros, uma dor que não atinge mulheres brancas da mesma forma.
A crítica ao Dia Internacional da Mulher corporativo: quando mulheres negras apontam que, enquanto mulheres brancas recebem flores, as mulheres negras (que ocupam a maioria dos cargos de limpeza e serviço) continuam invisibilizadas nas mesmas empresas, revelando a falta de sororidade real.
Movimentos de mulheres de matriz africana: organizações baseadas na ancestralidade e na proteção de saberes tradicionais, onde a união se dá pela preservação da identidade cultural e religiosa contra o racismo religioso e de gênero.
A luta por direitos das domésticas: situações onde a dororidade une trabalhadoras de uma mesma categoria contra um sistema de exploração que é mantido, muitas vezes, por outras mulheres que se consideram feministas mas não abrem mão de privilégios coloniais em suas casas.
Quem é afetado
As mulheres negras e pardas são as protagonistas e as principais afetadas pela dororidade, encontrando neste conceito ferramentas para nomear violências que o feminismo hegemônico costumava silenciar. O conceito também intercala e afeta a percepção de mulheres brancas, ao confrontá-las com a própria cumplicidade no sistema racista e ao desconstruir a autoimagem de aliada universal. No Brasil, o impacto da dororidade é visível em movimentos de base, coletivos culturais e na produção acadêmica que resgata a ancestralidade amefricana. O conceito beneficia a sociedade como um todo ao elevar o nível do debate democrático, exigindo que a justiça social considere as interseccionalidades reais da população brasileira, e não apenas modelos importados de igualdade formal.
Por que é invisível
A invisibilidade da dororidade é mantida pela hegemonia do feminismo branco, que detém o poder de fala na mídia, na política institucional e na academia. Por muito tempo, o conceito de sororidade foi apresentado como o único modelo de união feminina, tratando a questão racial como algo secundário ou divisivo. Além disso, a dor da mulher negra é frequentemente invisibilizada pelo mito da democracia racial e pelo estigma da mulher negra forte, que deve suportar tudo sem reclamar. Essa romantização da resiliência negra oculta a necessidade de uma solidariedade profunda e específica. A dororidade é invisível para quem se recusa a ver que a luta das mulheres não possui um sujeito único e que a branquitude é, em si, um fator de privilégio que pode ser exercido de forma opressora dentro de movimentos sociais.
Efeitos
Gera a criação de redes de afeto e resistência que salvam vidas, permitindo que mulheres negras quebrem ciclos de solidão e depressão causados pelo isolamento racial. Politicamente, a dororidade impulsiona candidaturas e lideranças negras que trazem pautas negligenciadas para a esfera pública, como a mortalidade materna negra, a segurança alimentar periférica e a dignidade das trabalhadoras domésticas. Estruturalmente, o conceito força o feminismo a se descolonizar e a reconhecer que não existe emancipação feminina sem o combate ao racismo. A dororidade produz uma nova ética de cuidado, onde a vulnerabilidade compartilhada torna-se combustível para a ação coletiva e para a reconstrução de identidades mutiladas pela violência histórica e contemporânea.
Referências (BR)
- Vilma Piedade
- Sueli Carneiro
- Lélia Gonzalez
- Djamila Ribeiro
Referências (Internacionais)
- Audre Lorde
- bell hooks
- Patricia Hill Collins
