Isso tem nome
Voltar para Verbetes

Colonialidade do poder

Padrão mundial de poder baseado na classificação racial da população como eixo fundamental do capitalismo.

decolonialidadepoderraçacapitalismoeurocentrismo

Definição

A colonialidade do poder é um conceito fundamental desenvolvido pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano para explicar por que as hierarquias criadas durante o período colonial continuam vigentes mesmo após a independência política das nações latino-americanas e africanas. Quijano argumenta que a colonização não foi apenas um evento histórico de ocupação territorial, mas a fundação de um novo padrão mundial de poder baseado na invenção da ideia de raça.

Essa estrutura classificou a humanidade entre "superiores" (europeus/brancos) e "inferiores" (indígenas, negros, mestiços), utilizando essa divisão racial para organizar o trabalho, a geografia e a distribuição de riqueza no capitalismo global. A colonialidade do poder é a "matriz" que garante que, séculos depois, a elite econômica continue sendo majoritariamente branca e os setores precarizados continuem sendo não-brancos, não por acaso, mas por desenho sistêmico.

No Brasil, o conceito dialoga profundamente com a obra de Lélia Gonzalez, que analisou como essa estrutura se perpetua através do sexismo e do racismo contra a mulher negra e indígena, mantendo o poder concentrado nas mãos de uma elite herdeira do sistema escravocrata.

Como funciona

Ela opera através da articulação entre raça e trabalho. O sistema designa funções específicas para cada grupo: ao branco, o trabalho intelectual, a gestão do capital e a governança; aos não-brancos, o trabalho braçal, servil e a extração de recursos naturais.

Funciona também pela naturalização das hierarquias. A colonialidade faz com que a supremacia europeia/norte-americana pareça "o curso natural da história" ou fruto de uma "evolução superior", escondendo que tal posição foi conquistada através da exploração colonial. Ela controla quatro âmbitos principais da existência social:

  1. Controle da economia (terras e mão de obra).
  2. Controle da autoridade (instituições e força militar).
  3. Controle do gênero e da sexualidade (imposição da família nuclear burguesa cristã).
  4. Controle do conhecimento (subjetividade e saber, validando apenas a ciência eurocêntrica).

Exemplos

  • A "ajuda humanitária" internacional: A dinâmica onde países do Norte (ex-colonizadores) ditam as regras econômicas e políticas para países do Sul (ex-colônias) sob o pretexto de ajuda, mantendo o controle político sem ocupação militar direta.

  • Divisão internacional do trabalho: Um executivo de tecnologia no Vale do Silício (trabalho "branco") ganha em uma hora o que um minerador de cobalto no Congo (trabalho "negro", essencial para a tecnologia) ganha em meses.

  • Hierarquia nas universidades: A exigência de ler autores franceses ou alemães para validar uma tese sobre a realidade social brasileira, ignorando intelectuais locais.

  • O sistema de justiça: A aplicação seletiva da lei, onde a presunção de inocência é um privilégio branco e a presunção de culpa é o padrão para corpos negros.

Quem é afetado

Todas as populações do chamado Sul Global. Indígenas, negros, camponeses e populações periféricas são mantidos em posições de subalternidade econômica e política. A colonialidade do poder dita quem tem direito a ter direitos: ela define zonas de "ser" (onde a violência é regulada pela lei, geralmente o Norte Global e as elites locais) e zonas de "não-ser" (onde a violência é a regra, como nas favelas e territórios ocupados).

Até mesmo a subjetividade das pessoas brancas é afetada, pois são socializadas em uma bolha de superioridade ilusória que as impede de reconhecer a humanidade plena do Outro.

Por que é invisível

A colonialidade é invisível porque se disfarça de modernidade. Aprendemos que o progresso técnico, a democracia liberal e o capitalismo industrial são conquistas universais da humanidade, quando, na verdade, são projetos locais da Europa impostos globalmente.

A ideologia da mestiçagem (no Brasil) e do multiculturalismo (nos EUA/Europa) também ajuda a ocultar a colonialidade, sugerindo que vivemos em sociedades pós-raciais ou tolerantes, enquanto as estatísticas de renda, encarceramento e mortalidade continuam seguindo rigidamente as linhas de cor estabelecidas há 500 anos.

Efeitos

  • Desigualdade econômica racializada: A perpetuação da lacuna de riqueza entre brancos e não-brancos.
  • Dependência externa: Países do Sul continuam exportando natureza (commodities) e importando tecnologia e teoria, mantendo a posição subordinada na economia-mundo.
  • Racismo institucional: As instituições do Estado (polícia, judiciário, escola) operam com a lógica colonial de vigilância e punição dos corpos não-brancos.
  • Autodesprezo cultural: A internalização, pelos colonizados, de que sua cultura, estética e conhecimentos são inferiores aos europeus.

Referências (BR)

  • Aníbal Quijano

Referências (Internacionais)

  • Walter Mignolo

Temas relacionados