Capacitismo linguístico
O capacitismo linguístico é uma forma de opressão estrutural manifestada através da linguagem e da avaliação normativa da competência comunicativa. Envolve o uso de termos que tratam deficiências como metáforas negativas, insultos ou sinônimos de incapacidade intelectual e moral, além da marginalização de formas de comunicação não normativas.
Definição
O capacitismo linguístico é um desdobramento específico do capacitismo que opera no campo da linguagem e do discurso. Ele se manifesta de duas formas principais: o uso de deficiências como metáforas pejorativas (ex: "surdo aos apelos", "paralisia política") e a hierarquização de competências comunicativas que exclui quem utiliza formas não normativas de interação, como a Língua de Sinais (LIBRAS), comunicação alternativa e aumentativa, ou fala com ritmos e entonações divergentes. Segundo a pesquisadora anauí (Anahi Guedes de Mello), o capacitismo é a determinação de quem é "apto" ou "inapto" com base na funcionalidade do corpo. No campo linguístico, isso significa que a sociedade impõe uma "normatividade auditiva e oral", onde apenas a fala rápida, linear e sem auxílios é lida como sinal de inteligência ou autoridade académica.
Como funciona
Este mecanismo opera pela naturalização do preconceito na gramática cotidiana. O capacitismo linguístico é tão onipresente que muitas vezes não é percebido como violência. Ele funciona através da metoforização da deficiência: transforma-se uma condição física ou cognitiva em uma categoria moral de insuficiência. Além disso, funciona pela patologização do discurso. Pessoas neurodivergentes ou com deficiências intelectuais são frequentemente silenciadas ou infantilizadas em debates, pois seu modo de processar e expressar a linguagem não atende aos padrões de agilidade e clareza exigidos pelo mercado.
Exemplos
Metáforas Negativas: Uso de expressões como "dar uma de joão-sem-braço" ou "mais perdido que cego em tiroteio", associando deficiência à incompetência.
Uso de Diagnósticos como Insulto: Chamar alguém de "autista" ou "retardado" para indicar defeitos morais ou intelectuais.
Exclusão Comunicativa: Falta de intérpretes de LIBRAS ou tecnologias assistivas em espaços públicos e profissionais.
Infantilização: Dirigir-se a adultos com deficiência usando termos diminutivos e tom de voz infantilizado.
Quem é afetado
Afeta prioritariamente pessoas com deficiência física, sensorial ou intelectual, pessoas neuroatípicas (como autistas e pessoas com TDAH) e usuários de comunicação alternativa. Em um nível mais amplo, afeta a sociedade como um todo, pois empobrece a comunicação e limita a troca de saberes a um padrão estreito de normalidade.
Por que é invisível
A invisibilidade decorre de séculos de dominação do modelo médico da deficiência, que trata a diversidade funcional como uma "falha" a ser corrigida e não como uma característica humana. Expressões capacitistas estão no dicionário, na literatura clássica e nos meios de comunicação de massa, sendo tratadas apenas como "figuras de linguagem".
Efeitos
Os efeitos incluem o silenciamento sistemático em ambientes de decisão, a exclusão do mercado de trabalho e a erosão da identidade de pessoas com deficiência. O capacitismo linguístico gera o que Fiona Kumari Campbell chama de "ontologia da deficiência como tragédia", onde o indivíduo passa a se ver através das metáforas negativas da sociedade.
Referências (BR)
- Anahi Guedes de Mello
- Lau Patrón
- Marco Antônio Gavério
Referências (Internacionais)
- Fiona Kumari Campbell
- Stella Young
- Lydia X. Z. Brown
