Isso tem nome
Voltar para Verbetes

Assédio religioso

Prática persistente de constrangimento, humilhação ou imposição de crenças no ambiente social ou profissional.

ReligiãoDireitos HumanosTrabalhoViolência PsicológicaLaicidade

Definição

O assédio religioso é uma forma de violência psicológica caracterizada pela conduta abusiva, intencional e frequente, que visa constranger, humilhar ou discriminar um indivíduo em razão de sua fé, crença ou da falta dela. Diferente da intolerância religiosa — que pode ser um ato isolado —, o assédio configura-se pela insistência, pelo cerco e pela repetitividade. É a tentativa de impor uma visão de mundo hegemônica, desqualificando qualquer outra perspectiva espiritual ou filosófica. No ambiente de trabalho, manifesta-se frequentemente como uma pressão velada ou explícita para a conversão, ou como a exclusão sistemática de quem não partilha da fé dominante. Trata-se de uma violação direta da liberdade de consciência e da laicidade, transformando a identidade religiosa (ou a ausência dela) em critério de aceitação e competência.

Como funciona

A dinâmica do assédio religioso opera através da imposição do "padrão de fé" e do proselitismo agressivo. O assediador utiliza sua posição de poder (ou a força numérica do grupo majoritário) para naturalizar rituais e símbolos de sua própria religião em espaços que deveriam ser plurais. Isso ocorre através de orações obrigatórias antes de reuniões de trabalho, distribuição insistente de material religioso não solicitado, ou o uso constante de retórica teológica para justificar decisões profissionais.

Paralelamente, ocorre a deslegitimação do outro: comentários depreciativos sobre indumentárias (como o uso de branco nas sextas-feiras), símbolos (guias, quipás) ou práticas alimentares de outras fés. A vítima é colocada em uma posição de "desviante" ou "espiritualmente enferma", sendo frequentemente alvo de tentativas de "cura", "libertação" ou "salvação" que, sob a máscara da benevolência, constituem agressões profundas à sua autonomia e identidade.

Exemplos

  • O culto corporativo: Empresas que instituem momentos de louvor ou oração obrigatória no início do expediente, constrangendo funcionários de outras fés a participar ou a se retirar (marcando-os como "diferentes").

  • A demonização do sagrado: Comentários de nojo, medo ou piadas jocosas quando um colega menciona festas de santo, orixás ou traz comidas rituais, associando-as a "macumba" de forma pejorativa.

  • O proselitismo coercitivo: O gestor ou colega que, ignorando negativas anteriores, insiste em presentear bíblias, enviar mensagens religiosas diárias e convidar para cultos, condicionando a boa relação profissional à aceitação desses convites.

  • A discriminação na contratação/promoção: Perguntas sobre religião em entrevistas de emprego ou preterimento de candidatos competentes por não pertencerem à igreja do dono da empresa.

Quem é afetado

Embora qualquer pessoa possa ser vítima, os alvos preferenciais são praticantes de religiosidades não hegemônicas, especialmente as de matriz africana (Candomblé, Umbanda), que sofrem com o racismo religioso entrelaçado ao assédio. Nestes casos, a perseguição é frequentemente justificada pela demonização direta de suas práticas.

Ateus e agnósticos também são grupos vulneráveis, frequentemente vistos como "imorais", "não confiáveis" ou "sem valores" dentro de estruturas corporativas conservadoras. Além disso, o assédio pode atingir pessoas da mesma fé do agressor que não seguem os dogmas com o rigor, a frequência ou a interpretação exigida pelo grupo dominante (o fenômeno do "fiscal da fé alheia").

Por que é invisível

A invisibilidade do assédio religioso decorre de sua camuflagem como "liberdade de expressão" ou "zelo espiritual". O assediador frequentemente mascara sua violência sob o manto da "evangelização" ou do "amor ao próximo", alegando que está apenas "querendo o bem" da vítima ao tentar salvá-la de suas crenças "erradas". Essa inversão narrativa dificulta a defesa da vítima: se ela reclama, é rotulada como intolerante, ingrata ou alguém que "tem o coração fechado".

Adicionalmente, a hegemonia cristã na sociedade brasileira naturaliza a presença de símbolos e rituais cristãos em espaços públicos e corporativos. O desconforto de quem não partilha dessa fé é frequentemente invalidado e lido como exagero ("é só uma oração", "é só uma imagem"). Essa naturalização faz com que práticas abusivas sejam percebidas como parte da "cultura da empresa" ou "costumes locais", silenciando o sofrimento de quem é coagido a participar de rituais que não lhe dizem respeito.

Efeitos

  • Autocensura e apagamento: A vítima passa a esconder sua identidade religiosa, deixa de usar símbolos sagrados ou mente sobre sua fé para evitar conflitos e garantir sua sobrevivência profissional.
  • Isolamento e segregação: Exclusão de círculos sociais e profissionais importantes, perda de oportunidades de promoção e "geladeira" por não frequentar os cultos ou grupos de oração da chefia.
  • Sofrimento psíquico: Desenvolvimento de quadros de ansiedade, estresse, sentimento de inadequação e medo constante de julgamento moral.
  • Ruptura da coesão social: Criação de um ambiente dividido entre "nós" (os eleitos/salvos) e "eles" (os mundanos/perdidos), destruindo a colaboração e o respeito mútuo.

Referências (BR)

  • Sidnei Nogueira
  • Vagner Gonçalves da Silva

Referências (Internacionais)

  • Marie-France Hirigoyen

Temas relacionados